Wednesday, February 15, 2006

Jogando limpo os jogos sujos


Ignácio de Loyola Brandão mostra
a hipocrisia de uma cidade num
romance policial de fundo amoral

O escritor Ignácio de Loyola Brandão amplia no próximo mês a relação dos livros policiais que marcaram os lançamentos deste ano. O anjo do adeus fará companhia, entre outros, a Xangô de Baker Street, de Jô Soares, com o qual se assemelha na análise do comportamento de uma cidade, seus moradores e referências. Se Jô optou pelo Rio do Império, Loyola procura situar o interior paulista, onde está a fictícia Arealva. Mas as semelhanças terminam aí. Os crimes e as investigações são diferentes.
Loyola faz uso do jornalismo policial para, a partir de dois crimes, desvendar os mistérios de Arealva. A morte da gostosa Manuela mexe com a vida de todos. Ela é rica, bonita, desejada e mulher de um empresário e político ao qual nenhum morador do lugar é indiferente.
Consumado o crime, Loyola apresenta a sua proposta explícita no subtítulo do livro: Sacanas honestos jogam limpo jogos sujos. Está dada a senha para o jogo de histórias e personagens. Mas é preciso superar as 20 primeiras páginas, cheias de referências, para compreender a proposta e se deixar levar por um texto que flui, ora com simplicidade, ora com rebuscamento. É como se Loyola tivesse colecionando histórias durante muito tempo e que, agora, despeja com sofreguidão nas páginas de O anjo do adeus.
Uma das referências, o clube da Baleia de Coral, onde se reúnem os seguidores e estudiosos da filosofia do dinheiro, é uma demonstração do fascínio e da visão crítica do autor sobre empresários. Nos últimos anos, Loyola foi responsável por projetos especiais sobre o assunto: Olhos de banco (biografia de Avelino A. Vieira, fundador do Bamerindus) e Itaú, 50 anos, são apenas dois de um conjunto onde se destaca também biografias de Onassis, Fleming (o inventor da penicilina) e Edison (o da lâmpada).
É com prazer que o escritor mergulha nesses universos e mostra as oportunidades e os negócios que movem os endinheirados ou pretendentes que freqüentam a Baleia de Coral. Mas Loyola não foge à sua proposta original, mesmo quando parece se perder nas referências. O livro flui com a teoria dos jogos, que vai agregando personagens e situações, se antecipando e deixando caminho para o leitor se colocar na pequena Arealva. Uma cidade que o autor desenha como farol de um país onde os valores se misturam, assim como o passado e o presente que irá delinear o futuro.
A grande virtude do escritor está na ironia com que trata seus personagens. Há aqueles por quem se percebe a paixão, mas ele procura, em ritmo frenético, igualar a todos na trama, no drama e na comédia da vida privada dos habitantes de Arealva.
O escritor é imperdoável até nas brincadeiras, onde expõe verdades íntimas dos personagens e descreve o que aconteceu com cada um deles. Na relação, o autor se inclui e diz que rejeitou fazer um pedido de aposentadoria especial por perdas e danos profissionais e financeiros impostos pela ditadura. De fina estampa é sua justificativa de que perdeu, em valores atuais, o correspondente a R$ 15 (´´tenho a nota fiscal``) referente a uísques pagos e não bebidos por força de agentes da repressão que invadiram o bar onde estava à procura de terroristas.
São os ´´sacanas honestos que jogam limpo jogo sujos`` e enquanto existirem haverá histórias e mais histórias em Arealva ou em Baker Street. Crimes e paixões que fazem leitores perderem horas de sono para desvendar as histórias nas quais se incluem. Ou melhor, nas quais estão relatados o comportamento de uma sociedade onde a ética e as opções de vida são postas à prova na mesa, na cama, no botequim e nos clubes onde se serve, com ou sem soda, as bebidas e os jogos.

Publicado em 09/12/1995 Fonte:JORNAL DO BRASIL

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