Saçarico destemperado

Camilo José Cela escreve, aos 75 anos,
sobre machões, fogosas, homossexuais e fetichistas
O escritor espanhol Camilo José Cela surpreende sempre. Depois de conquistar o Prêmio Nobel de Literatura de 1989 pelo conjunto de sua obra, com destaque para o mergulho nas feridas abertas pela Guerra Civil Espanhola e que o estimularam a discutir o poder e o comportamento do homem diante da opressão e das injustiças em livros como A Colméia, Mazurca para dois mortos e O assassinato do perdedor, Cela lançou em 1991, com 75 anos, Saracoteios, tateios e outros meneios.
Neste livro que a Editora Bertrand traz ao Brasil, depois de cinco anos do lançamento, na tradução de Mario Penedo, Cela solta o verbo, revelando em 20 contos o seu lado libertino para tratar mais uma vez da opressão e do preconceito, expor com ironia os desejos nem sempre recatados de padres, solteironas, fogosas, machões, fetichistas, heterossexuais e homossexuais.
São histórias atemporais, algumas saborosamente debochadas, rasgando o véu da hipocrisia e mostrando, de forma crua, sem desprezar palavrões, os segredos das alcovas. Em ´´Discurso aberto para o ouvido certo``, um pai descreve ao filho os dotes, físicos naturalmente, de sua avó, falando com nostalgia das mulheres do passado, contemporâneas de Pura, a avó do conto.
Em um dos trechos pudicos da apresentação de Pura, o pai diz: ´´Aquilo, filho meu, era gado raçudo demais para os costumes de hoje! Aquelas mulheres eram fêmeas do bota para quebrar, do pega mata e come, da pancadaria, do nem Deus me segura! Tendo à frente uma daquelas mulheres, de temperamento semelhante ao dela, podia se administrar uma tropa de putas, de modo que todas elas tivessem, de sobra, tempo para encarar as tarefas domésticas, a criação dos filhos e os trabalhos próprios do sexo``.
É assim, em linguagem escancarada, que Cela vai descrevendo o que há por trás das roupas e convenções sociais a que estão submetidos seus personagens. As ilustrações de cada conto da edição brasileira _ postais de nus antigos, característicos da virada do século _ ajudam o leitor a mergulhar nesse universo de delícias. O escritor, de estilo refinado, consegue transformar seu Saracoteios... numa fechadura aberta de uma porta por onde se pode ver, com irrestível dose de curiosidade, as relações profanas que ele consagra nos contos.
A vida de ´´Soledade Mascoelha do Cebolão`` é uma das histórias nas quais Cela brinca com a perversidade sexual. A personagem, ´´também conhecida como Xotalouca (e chamada por alguns de Grelotorto, por ter o dito cujo um pouco desviado para estibordo), foi desvirginada com um tiro só, no dia da Virgem da Piedade, padroeira de Almendradejo, seu povoado natal, no ano de 1913. A coisa não foi feita com má intenção, Deus que não me deixe mentir, mas por pura brincadeira, um tanto pesada, é verdade, porém da mais resplandecente eficácia``, O restante da história já se pode imaginar, assim como a vida e as andanças de Dom Párdulo de Guzmán y Montecín, ´´aliás frei Pinto Pau-Ferro``, ou a de Dom Bonifácio de Abricó Sarmento e Gomes, ´´aliás Quasecapão, de profissão oboé da Banda Municipal e por inclinação paquerador daquelas cuja cara seria melhor encobrir com um piedoso véu``.
Mas não se espere do livro de Cela um festival de histórias que estariam melhor reunidas em revistas masculinas. É literatura com a qualidade e a marca do escritor que não dispensa a elegância das palavras para temperar com inteligência a sua sátira. Aliás, entre Cela e o poeta Carlos Drummond de Andrade há uma similaridade ímpar. São homens que, após os 70 anos, se deram o direito de mostrar uma face libertina. Cela em contos, Drummond em poesias, ambos mostraram, para a delícia de seus leitores e o prazer das horas sem sono, o universo erótico da vida humana, sem a qual não é possível viver, ou será?
Publicado em 02/03/1996 Fonte: JORNAL DO BRASIL

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