Thursday, February 16, 2006

Escandâlos, sustos e sangue


Ex-corretor britânico explora o mundo excitante das operações fraudulentas e milionárias

O ex-corretor do mercado financeiro londrino Michael Ridpath (foto), 35 anos, depois de atuar 12 anos no ritmo nervoso das operações de compra e venda de papéis, quando chegou a administrar recursos da ordem de US$ 1 bilhão, decidiu ganhar dinheiro com literatura.
Em 1995, na esteira da crise que levou o tradicional Banco Barings da Inglaterra ao chão, Ridpath escreveu o livro Negociações perigosas (Free to trade). Um thriller de oportunidade que segue à risca o passo-a-passo dos best-sellers. Mulheres bonitas, uma morte suspeita, intrigas, milhões de dólares em jogo e, o que fez com que a história rendesse muito dinheiro a Ridpath: um beabá das operações financeiras, em que o mercado de derivativos é um dos destaques.
Não poderia ser diferente. Foram as transações com derivativos _ apostas em papéis que garantem operações reais, como importação, desempenho de uma ação ou título público e privado nos pregões _ que levaram outro inglês, Nick Leeson, a provocar a crise do Barings. O ex-corretor mostra esse universo, que despertou a curiosidade da Inglaterra e de todo o mundo, principalmente os países emergentes, entre eles Cingapura, palco do escândalo do Barings, e o Brasil, onde é cada vez maior o volume de operações com capitais estrangeiros de risco.
Tanto que Ridphat programou visitar o Brasil ainda este mês à procura de ambientação para uma nova história. Se seguir a trilha de Negociações perigosas, o livro terá uma estrutura bastante simples. Mas, certamente, aqui o escritor encontrará situações mais intrigantes.
As crises que envolvem o Nacional e Econômico, com direito a balanços forjados e acionistas minoritários a ver navios, são um rico material para esse inglês que nasceu em Devon, estudou em Yorkshire e se formou em História por Oxfordf.
Ridpath poderá acompanhar ainda, com olhar de especialista, a oscilação das bolsas brasileiras face ao temor de CPI nos bancos; um programa de privatização em andamento, que aceita pelo valor de face títulos vendidos no mercado secundário a 35%; e juros na estratosfera, que atraem capitais especulativos como os que Ridpath manipulava. Sua área de atuação era justamente a dos os famosos junk bonds, os bônus de alto risco que geram fortunas e ruínas. Se ler atentamente os jornais e conversar com outros operadores, o escritor se deparará também com clientes mortos fazendo operações de empréstimo de milhões e um profissional do mercado, Clarimundo Sant`Anna, ex-diretor do Nacional, maquiando balanços para esconder a bagatela de US$ 5 bilhões.
Em Negociações Perigosas, o corretor Paul Murray, da pequena firma de investimentos e administração De Jong & Co. começa o dia dando a exata idéia da sedução que o ambiente que freqüenta irá despertar no leitor: ´´Perdi meio milhão de dólares em pouco menos de meia hora e, além disso, a máquina de café encrencou``.
Mas isso será café pequeno. Murray irá sair para um drinque com uma colega da corretora, cujo corpo será encontrado no dia seguinte boiando nas águas do Tâmisa. Aí começa a rede de intrigas. Debbie era uma mulher bonita, extovertida, que gostava de apostar, ganhar e gastar dinheiro. Também arriscava e, seguindo os passos das últimas operações que realizou, o livro ganha em velocidade.
O texto seco ajuda a leitura, as explicações das operações financeiras são didáticas, mas o suspense criado em torno do crime, das situações e dos ambientes glamourosos dos centros financeiros de Londres e Nova Iorque, por onde desfilam os personagens, segue a estrutura pré-moldada dos best-sellers. Para quem começou agora, Ridphat sabe ganhar dinheiro.


Publicado em 06/04/1996 no Caderno Idéias Fonte: JORNAL DO BRASIL

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