Thursday, February 16, 2006

Fiapos bergmanianos


História de um casal no
interior dos Estados Unidos
focaliza a zona sombria
de vidas simples


O texto seco como o de Marguerite Duras e as imagens rurais como as de William Faulkner são características marcantes na obra do escritor americano Jim Harrison, que, não por acaso, a exemplo de Duras, tem inspirado cineastas a transporem para a tela seus livros. Foi o que fez o diretor Edward Zwick com Lendas de outono, que no cinema ganhou o título de Lendas da paixão, estrelado por Anthony Hopkins e Brad Pitt.
A novidade, agora, em torno de Harrison, fica por conta de um livro de 1976, Farmer, que o brasileiro Bruno Barreto, o mesmo diretor de Dona Flor e seus dois maridos da obra de Jorge Amado, levou para as telas com Amy Irving e Dennis Hopper nos papéis principais. O filme deve chegar às telas ainda neste semestre, mas Farmer acaba de ser lançado em livro, com o título Atos de amor.
O livro conta a história de um professor de escola rural e sua relação com a mulher de um amigo que morreu e que passará a acompanhá-lo, com a aprovação de toda a comunidade. Até aí, a história de Joseph e Rosealee teria tudo para correr bem não fosse entrecortada pela aparição esfuziante de Catherine. Uma aluna de Joseph que passa a povoar os seus sonhos e, depois, a satisfazer seus desejos.
Harrison, porém, tem o mérito de trabalhar essa história simples com delicada sofisticação. Seus personagens são amargos, mas se permitem momentos de extrema ternura. Vivem na área rural e têm como lazer a caça, pesca e os banhos nas lagoas. Joseph também mergulha nos livros e sonha com os mares e os seres que neles vivem. As imagens mesmo que recheadas de detalhes não deixam de ser desertas. A vida segue um ritmo lento, bem apropriado a pequenas comunidades rurais _ o próprio Harrison vive numa fazenda do Arizona _, como a estrutura com que a história é contada. Mas há momentos que, de tão cinematográficos, conseguem prender a atenção do leitor e remetê-lo para seu passado.
´´Joseph gostava dos dias compridos e frescos do outuno, quando até mesmo as sombras projetadas na terra eram nítidas, específicas. O celeiro criava um outro maior, mais escuro, e os dentes do ancinho enferrujado encompridavam-se por cima do mato. A primeira geada fizera murchar a folhagem espessa do quintal, deixando à mostra as bolotas carnudas, as abóboras verdes, os últimos tomates e pepinos já podres. Gansos e galinhas possuíam sombras próprias, ciscantes``.
É nesse território de sombras que Harisson monta o seu quebra-cabeça, jogando fiapos bergmanianos sobre personagens simples, cuja complexidade da vida é resolvida numa taberna entre um gole e outro. Ou com histórias de pescaria e caça. As regras estão todas prontas diante de si, mas é com indelével prazer que Joseph irá tentar encontrar o novo. O mar onde habitam os peixes que conhece nos livros e o cheiro de Rosealee, que,depois, passa a lhe parecer extremamente familiar.
Atos de amor não chega a ser um grande livro. É gostoso, porém, como um sorvete de morangos. Flui com suave amargura, como o retrato de Itabira a que se referia Carlos Drummond de Andrade. As cidades e os personagens vivem numa comunidade que parece longíngua dos grandes centros e, por isso, representam um vento de nostalgia, aí sim amarga, daquilo que não existe mais, exatamente como os versos do poeta mineiro.

Publicado em 06/04/1996 no Caderno Idéias Fonte: JORNAL DO BRASIL

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