Thursday, February 16, 2006

Reportagem de uma época


Um crime no cenário deslumbrante do Golden Gate Park, em São Francisco, nos Estados Unidos, é o ponto de partida do instigante livro-reportagem do jornalista Marco Lacerda, Clube dos homens bonitos, que a Editora Objetiva acaba de lançar.
A partir da história real de um brasileiro encontrado morto no local, Marco Lacerda mergulha no submundo de São Francisco e atravessa os anos loucos do final da década de 60 até os anos 90, onde os ventos sombrios da Aids diluem a alegria esfuziante desta cidade americana. Com passagens pelo Nepal e Minas Gerais, o autor constrói um texto dinâmico e arrojado, uma reportagem policial com pinceladas precisas da melhor da literatura.
Em Favela high-tech, lançado há dois anos, Marco Lacerda já deixava transpassar as qualidades literárias de seu texto e a sua vontade de desvendar o submundo das megacidades. A prostituição em Tóquio deste livro cede lugar a de São Francisco e, unindo as duas obras, o Zen como ponto de equilíbrio.
É a partir da sugestão de um monge de que ´´os segredos da vida estão nas sombras, nunca a céu aberto`` e ´´se você quiser entender os segredos dos mortos, procure a resposta na sombra dos vivos``, que Marco Lacerda irá caminhar nas sombras, conduzindo com perspicácia o leitor.
Para reconstituir a história real dos personagens, Marco traça um painel detalhado da aristocracia mineira no início da ditadura militar. O personagem central da trama, o milionário Bruno Fraga, filho do empreiteiro Herculano Fraga, tem um destino traçado pelos pais: curso de Direito em Harvard, em 1968, casamento em sociedade e, posteriormente, como filho único, o comando das empresas da família.
O endurecimento da ditadura militar, em 1968, quando Bruno completa 18 anos e deveria partir para os Estados Unidos, abrirá, porém, os seus olhos para outra realidade: a repressão financiada pela aristocracia empresarial na figura de seu pai. E, ao mesmo tempo, a descoberta de um mundo novo no Stage Door, um bar de mezanino do Teatro Marília, em Belo Horizonte: drogas, sexo e rock. Pelas mãos de Chocolate Jorge, uma espécie de guru anarquista da turma desse bar, Bruno irá descobrir o LSD e a homossexualidade. E, na seqüência, a reação familiar, a perda do amigo recém-conquistado e, depois, o vazio. Por fim, a viagem aos Estados Unidos, não mais para estudar em Harvard, mas para viver por conta e risco próprio em São Francisco.
Como tantos brasileiros que partem para outro país, Bruno irá se virar por meio de pequenos biscates até se transformar numa das mais famosas drag queens do Clube dos Homens Bonitos de São Francisco e perder sua identidade em meio a drogas e sexo até se encontrar num templo Zen.
Ao seu encontro parte de Belo Horizonte, outro jovem, Teodoro Nava, à procura de sua identidade. Marco irá conviver com Bruno na tentativa de desvendar essa busca de Teodoro. Entrará nos templos Zen e conviverá com o monge Taizen Korematzu, acusado da morte do brasileiro, encontrado com um tiro e sinais de violência no corpo no Golden Gate Park.
Esse é o mistério do livro-reportagem, cujas sombras serão pinceladas ao longo de 130 páginas até o surpreendente desfecho final. Uma das qualidades de Marco Lacerda está no uso adequado da tática do quebra-cabeça, que leva o leitor a percorrer ansioso a história à procura da verdade, que os personagens ocultam.
Outra característica marcante na obra de Marco é o falar a verdade, sem preconceitos. Os fatos apresentados com crueldade, não escondem a sua preocupação em preservar e querer entender o outro. E, sobretudo, fazer com que o leitor compreenda a geração, na qual se enquadra, que conviveu com o golpe militar, a repressão, as alucinantes viagens dos anos 60, as utopias e a morte, nesse caso, representada pela Aids, que diluiu muitos dos sonhos de liberação sexual. (Carlos Franco)

Publicado em 06/04/1996 no Caderno Idéias Fonte: JORNAL DO BRASIL

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