A sociedade justa segundo Galbraith
Defensor das regras do mercado pregaa ação do setor público contra a miséria
O economista canadense John Kenneth Galbraith amadureceu, aos 87 anos _ completará 88 em outubro _, a sua visão de mundo diante dos desafios impostos pela globalização da economia. E transformou em livro _ A sociedade justa, mesmo título do tratado de Walter Lippmann de 1937 _ reflexões apresentadas em seminário da Igreja Evangélica Alemã (Deustsche Evangelische Kirch) em 1993 e destiladas em conversas com outros acadêmicos de Harvard e com o filho James Galbraith, da Universidade do Texas.
A sociedade justa do pensador da Universidade de Harvard, que se notabilizou pelo best-seller A era da incerteza e assessorou o ex-presidente americano John F. Kennedy, é o que se pode chamar de um tratado de convivência macroeconômica entre homens politicamente corretos. Ou seja, economistas que não se limitam a combater a inflação. Têm propostas sociais e procuram' não desmontar o Estado, mas, ao contrário, fortalecê-lo.
Por isso mesmo, o novo livro de Galbraith é leitura obrigatória para aqueles que querem criticar, com seriedade, os neoliberais que, com pose de sociais-democratas, habitam hoje o Planalto Central do Brasil.
Esse pensador octagenário é um democrata liberal, seguidor de Keynes, e que se preocupa mais com o social _ as conseqüências sociais de decisões econômicas _ do que aqueles que do lado de baixo da linha do Equador se dizem liberais e estão mais próximos dos republicanos. Galbraith é crítico feroz desses republicanos e correlatos justamente porque não dão a menor a importância ao papel social e econômico a ser desempenhado pelo Estado. Exceto, é claro, quando precisam deste mesmo Estado para fomentar seus negócios e suas ambições políticas. Nesses casos, porém, poderão até encontrar apoio de Galbraith se este uso for para a construção da chamada sociedade justa. Mas, certamente, raras serão estas circunstâncias.
Outra peculiariedade desse pensador _ um dos mais importantes economistas do século 20 _ é a capacidade de aprimorar sua visão liberal ao longo dos anos, sem nunca rejeitar seus primeiros livros, onde o Estado aparece sempre não como coadjuvante, mas como ator central da trama política, econômica e social. Tanto como regulador do mercado e balizador de suas regras, como participante até dos investimentos.
No prefácio de apresentação da edição brasileira, que redigiu a pedido da Editora Campus, o próprio Galbraith apela para que a aceitação do papel do Brasil no sistema econômico global não se dê com o sacrifício da legislação e de serviços de assistência social. O corte dos gastos públicos e o ajuste fiscal, ensina o pensador, não podem comprometer os investimentos em educação e seguridade social, principalmente no momento em que o mundo do trabalho passa por uma fase de ajustes. E a miséria se distribui numa velocidade maior que a renda.
É nesse ponto que Galbraith vai tocar mais fundo neste novo livro, onde não faltam críticas aos gastos bélicos, inconcebíveis na sua opinião, e aos ataques sucessivos ao meio ambiente para o desenvolvimento industrial. A arma de Galbraith contra as desigualdades é a educação a qual destina um capítulo para enfatizar seu papel decisivo.
No que se refere à distribuição de renda, Galbraith destaca a essencialidade do imposto progressivo e do salário minímo mais elevado: ´´`O argumento mais comum contra ele (o salário mínimo) _ que reduzirá as oportunidades de emprego _ pode ser peremptoriamente refutado, por ser pretexto invariável de quem não quer pagar o salário, além de não contar com nenhum apoio empírico. Além de oferecer uma rede de segurança básica, a sociedade justa deve também proteger a renda do trabalho de seus membros menos favorecidos``.
O lançamento do livro no Brasil chega em bom momento: as reformas da previdência e administrativa estão em pauta. E Galbraith pode ser fonte para aqueles que querem argumentar o mérito das mudanças propostas e não apenas a sua superfície _ a de que se o governo vai ganhar ou perder. A sua avaliação crítica é pragmática: nenhum governo deve ampliar a miséria, mas combatê-la. E, finalizando mais contemporaneamente ainda, Galbraith destaca a importância de se evitar os fluxos migratórios de miséria. E a forma é simples: a modernização da estrutura do campo. O Eldorado dos Carajás é, na contramão, o exemplo do Eldorado do atraso e da miséria o qual combate em palavras e aguarda ações do Estado.
Para Galbraith, gastos do Estado contra a miséria são sempre justificaveis, pois integram ações para a formação da sociedade justa, onde há lugar para o mercado, o capital e o trabalho. Claro que tudo com regras politicamente corretas. Exatamente como esse senhor que tem dedicado a vida para a construção dessa utopia oposta a de Karl Marx, mas que nem por isso dispensa o Estado de suas funções.
Publicado em 27/04/1996 no Caderno Idéias Fonte: JORNAL DO BRASIL

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