Friday, February 17, 2006

Paisagens baianas

Uma certa impressão

"No horizonte do outro lado do vale subiam, tornados minúsculos pela distância, os rolos de branca fumaça seca de mais um incêndio na mata. Era um verão de fogo, pensava o homem, um sol tão escorchante que mesmo ali na serra, ao lado da cachoeirinha cristalina que caía fria e quase em silêncio do penhasco coberto de limo, sob as altas árvores que protegiam os cacaueiros, parecia-lhe sentir o calor das chamas lá longe``.É assim, alinhavando impressões da paisagem nordestina e dos homens que a habitam, como no conto Chamas de verão, e, principalmente, colecionando histórias de gente simples, que Marcos Santarrita foi construindo Bahia minha.Nessa coletânea de histórias, Marcos apresenta as idéias que forjaram sua própria formação humanista. É com prazer, quase infanto-juvenil, que o autor conduz seus leitores pelas mesas dos bares baianos, onde se serve acarajé com Jean Paul Sartre. O existencialismo tropicalista e tropicaliente das paisagens por onde conduz os contos, crônicas e novelas reunidos no Bahia minha, onde o destaque é justamente a mesa onde ser sorve o existencialismo barroco, boêmio e curioso do autor.O próprio elo de ligação entre as histórias, a Bahia, é insuficiente para dar uma homegeneidade ao livro. O que, contudo, não chega a diluir o interesse pela leitura. Marcos Santarrita domina a língua em que escreve e seu texto flui com naturalidade. Suas histórias sensibilizam pela proximidade com quem as lê, como Noite feliz _ o Natal, curiosamente, é momento de balanço e alguma tristeza nostálgica depois que a infância se foi _ e Os policiais, daqueles que quanto mais perguntam, mais descobrem sombras e mais nos complicam. Mas é na novela, curta e singela, A herdeira, que Marcos destila sua sensibilidade e deixa aflorar uma outra qualidade: a capacidade de traçar perfis psicológicos, sem cair no pieguismo e nas armadilhas que fatos, muito explorados, deixam no caminho.Bahia minha, Marcos deixa claro, é terreno de suas reminescências, onde ainda habitam sabores e sonhos do passado. Um daqueles lugares que, ao passar, temos a sensação de querer voltar. É o que fez Marcos.´´Na sala de visitas, que a luz do sol torna quente mas não clara, Raquel olha em volta e tem a atenção atraída para o violão sobre a radiola. Pensa vagamente em apanhá-lo, pois é dia de aula e o professor não tardará a chegar, porém como está mais próxima do sofá deixa-se cair sobre ele, com uma esquisita sensação de cansaço que sabe muito bem não ser físico``. Marcos, ao contrário de seu personagem, pega a viola, solta os acordes e tenta, com essas histórias, afastar esse cansaço que não é físico, mas nostálgico.

Publicado em 27/04/1996 no Caderno Idéias Fonte: JORNAL DO BRASIL


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