Monday, February 20, 2006

Caio fez o testamento de sua geração


A face da morte, também para Caio, não é indolor, mas pode ser exercício de vida. Tanto que é em Frida Kahlo, a artista plástica mexicana tantas vezes retalhada em mesas cirúrgicas para manter-se de pé, que este gaúcho vai buscar a imagem para abrir o último conto que escreveu. ``Lo que importa es la no-ilusión. La mañana nace''. Caio não tinha ilusões quanto à sua condição de paciente terminal, mas transformava suas manhãs em arte.``Fica agora assim por favor parada contra esta janela de vidro que a luz do entardecer está batendo nos seus cabelos e eu quero guardar para sempre na memória esta imagem de você assim tão linda''. Imagens. São as imagens e os sons o que prevalece em Caio. ``A chuva é tão fina que nem chega a molhar, apenas gela. Tenho que ir em frente ao encontro de K, nesta ou em qualquer outra cidade do Norte ou do Sul, da Europa ou da América. Histórias como esta costumam acabar bem e, mesmo que não se viva feliz para sempre _ afinal, não se pode ter tudo _, deve haver pelo menos algum lugar quente e seco para abrigar o final da noite''.O tempo de Caio não foi suficiente para encontrar K em sua plenitude, mas encontrou o abrigo quente e seco ao lado dos pais Zael e Nair, dos irmãos Luís Felipe, Cláudia, Márcia e José Cláudio. K como a Ângela de Clarice são as imagens que fluem e esvoaçam borboleteando, e as quais seus autores gostariam de ser lembrados, por isso perseguiram nesta busca diante do imediatismo do corte, da cisão, de-cisão entre a vida e a morte.O testamento de Caio é isso. Expressa os clichês que vivenciou todos, e intensamente. Sua busca contínua por K e o gosto requintado pelos anjos travessos como Hilda Hilst, na casa de quem se refugiou por um tempo, também à procura de K. Ao encontro de um Caio por completo, metade homem, metade mulher, e de corpo inteiro, um gênero humano que fosse capaz de carregar todas as alegrias e as dores do mundo. Travessamente, suavemente a ponto de ser paixão.Do menino que com 6 anos começou a escrever e, aos 16 anos, publicou em revista de circulação nacional, Cláudia, o conto O príncipe sapo, ao livro Morangos mofados, de 1982, restou na obra póstuma de Caio exatamente o amor que os colecionadores de história têm pelas suas memórias.Um amor que transcende e faz com que o imcompleto Estranhos estrangeiros, que não chega a ser sua obra-prima, mas o esboço dela, seja aceito como um arremate deste testemunho de uma geração que queria ganhar o mundo e dividir seu conhecimento, suas experiências com o objetivo de quebrar as barreiras do preconceito e do medo. Do obscurantismo.Como o mago das cartas de Tarô, a alquimia a que recorre Caio em seu momento de adeus a K é travessa. Deixa transparecer que a sua busca não terminou e ainda há castelos lá fora, que outros irão de ver com seu olhar.E para não deixar dúvidas a Companhia das Letras reedita com o lançamento de Estranhos estrangeiros, As pedras de Calcutá (1977), onde expõe o horror da perseguição, dos que se sentem perseguidos, mas deixam se antever a liberdade. O vôo das borboletas que quase estilhaçam as asas como as cartolinas que dão vida a Marienbad de Resnais e os castelos de Caio.``Preciso ficar sempre atento. Ainda não anoiteceu, e alguns dizem que há castelos pelo caminho'', despede-se Caio para seguir sua viagem, deixando sobre a mesa o roteiro do encontro com K. Na eternidade. Nas manhãs de que falava Frida Kahlo. (Carlos Franco)

Publicado em 06/07/1996 no Caderno Idéias Fonte: JORNAL DO BRASIL

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