Friday, February 17, 2006

Com sabor de coisas simples


E. Annie Proulx trata, com
suavidade, a morte e pessoas
comuns que buscam a felicidade

A escritora E. Annie Proulx ganhou os prêmios Pulitzer de 1994, National Book Award de 1993 e o Internacional de Ficção do Irish Times 1994 pela simplicidade. É com economia de palavras, fina ironia e um gosto pelas coisas simples da vida que Annie tece a trama de Chegadas e partidas.A história de Quoyle, um jornalista de terceira categoria, que nasceu no Brooklyn, em Nova Iorque, e viveu em pequenas cidades provincianas não tem nenhum atrativo especial. É traído pela mulher, com quem tem dois filhos, trabalha na pequena redação de um jornal como free-lancer no qual faz a cobertura da política local. Não tem ambições e como se saísse das páginas de Nelson Rodrigues está sempre disposto a dizer para a mulher: ``perdoa-me por me traíres''.É a morte inesperada da mulher, Pétala Bear que, antes de cair de carro num abismo, vende as duas filhas do casal _ Bunny e Sunshine _, recuperadas depois por Quoyle, que dará impulso à trama. Com a ajuda de uma tia, Quoyle tentará recuperar-se dos dramas numa cidade fria, encravada numa encosta do Canadá.É aí que o livro ganhará fôlego e suave velocidade. Annie demonstra nas frases curtas, muitas vezes irônicas, o cotidiano de pessoas absolutamente desglamourizadas, cujo atrativo está na própria tessitura da pele, cortada pelos ventos frios. São pessoas que vivem com simplicidade. Se recuperam meio que abobadamente dos choques, talvez pela compreensão que, independente dos níveis sociais e das cidades, tudo o que o ser humano procura é a felicidade ou ao menos a construção dela.E a pergunta que fica parada no ar é se um homem sem qualidades, a não ser a respiração e o olhar acompanhado de um vocabulário simples, tem direito à felicidade. Annie acredita que sim, aposta na reconstrução da vida de Quoyle, sem deslumbramento, sem recorrer à densidade intelectual e psicológica comuns em livros desse tipo. E éaí que reside a virtude de Chegadas e partidas: a simplicidade.Dividindo a vida entre Terra Nova, a região cravada na encosta canadense, onde Quoyle buscará a redenção, e um apartamento no Brooklyn, ponto de partida de seu personagem, a jornalista Annie resolveu descrever no livro o universo que vivenciou. São pescadores e seus nós, que ela desata e apresenta capítulo a capítulo. E os vôos dos pássaros e o movimento das marés.Nesse ambiente calmo, Annie encontrou ainda uma forma suavemente poética de conviver com a morte, as chegadas e partidas. É com sensibilidade que ela descreve a morte, a partida, quando a criança pergunta o que é coma. ``É quando a pessoa perde os sentidos, fica inconsciente. Mas não morreu nem está dormindo. Alguma coisa no corpo ou na cabeça está machucada e o corpo espera um tempo para melhorar até poder levantar. É como quando seu pai liga o carro de manhã e espera ele esquentar. O motor está funcionando, mas o carro não está andando''.Com elegância, Annie chega à descrição da morte. ``Então Pétala está em coma. Dormindo, o pai disse. Não pode se levantar. - Bunny, preste atenção no que vou lhe dizer. Pétala morreu. Não está em coma. Não está dormindo. Seu pai disse o contrário para que você e Sunshine não ficassem muito tristes. Ele não queria ver vocês tristes.''A criança insiste e quer reencontrar o passáro ferido que estava numa das pedras das encarpadas encostas, mas no local só há uma pena, quase levantando vôo. Como os personagens de Annie que quase levantam vôos, mas estão presos à gravidade da vida e da Terra.

Publicado em 22/06/1996 no Caderno Idéias Fonte: JORNAL DO BRASIL

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