Tuesday, February 21, 2006

O estranho caso do Dr. Tchekhov


Moacyr Scliar recorre
à literatura para relembrar
a história da medicina

A história da medicina é a narrativa da luta do homem contra a morte desde que os primeiros seres se puseram a caminhar sobre dois pés e que antecede em muito o aparecimento da escrita. E passa a ser presença constante nos documentos tão logo os primeiros povos começaram a dominar a linguagem figurativa e, depois, escrita.Um dos primeiros registros escritos desta ciência está no Nei-tsing, um tratado médico atribuído ao imperador chinês Huang-ti (2.698-2.598 a. C.). Nele, alguns órgãos e suas funções são identificadas: ``O coração é o rei, os pulmões, os ministros, o fígado, o general, a vesícula, a justiça''.O médico-escritor Moacyr Scliar, a exemplo de outros de duplo-ofício como Rabelais, Tchekhov, Conan Doyle, Miguel Torga, Pedro Nava, Guimarães Rosa e Dyonelio Machado, é um apaixonado pela medicina. E, em A paixão transformada, mostra suas razões, conduzindo o leitor, por meio da literatura, para os corredores mais recônditos desta ciência. E melhor, o faz em dose dupla, pois também lançou, pela editora Relume Dumará, dentro da série Perfis do Rio, Oswaldo Cruz.Mas é na trajetória da medicina na literatura que Scliar resgatará pílulas reveladoras de grandes homens, seus medos e idéias através dos tempos. Charles Darwin (1809-1882), por exemplo, depois de assistir a duas operações como aluno de medicina na Inglaterra, mudou de idéia. Foi pesquisar os animais. Melhor para a humanidade que ganhou a teoria da evolução das espécies.O terror da mesa de cirurgia e da dor também está presente em cartas e livros. A dor, aliás, só será amenizada com medicamentos _ antes o era com bebida alcóolica e hipnotismo _ a partir do século 19, quando William Thomas Green Morton (1819-1868) descobre a anestesia e passa a viver um conflito: o direito sobre sua descoberta em contraponto à necessidade de que a descoberta se espalhasse, reduzindo as dores dos homens.Scliar passeia pelos escritos de Cornelius Celsus (53 a.C - 7 d. C), que identifica as quatro características do processo inflamatório _ rubor, tumor, calor e dor, e pelas superstições listadas por Serenus Sammonicus no fim do Império romano, onde a expressão abracadabra ganha força como instrumento de preservação de doenças, desde que escrita por inteiro e, em seguida, com cada uma das letras retirada. O papel com esta antecipação do que aparecia mais tarde na poesia concreta, deveria ser pendurado no pescoço, como um amuleto.Com histórias curtas, que, na média, não ultrapassam a duas páginas, o livro do doutor Scliar é de fácil e curiosa leitura. Com Anton Tchekhov, o autor dá a justificativa para este intenso trabalho de A paixão transformada: ``Fico satisfeito quando me dou conta de que tenho duas profissões, não uma. A medicina é a minha esposa legal, a literatura a minha amante. Quando canso de uma passo a noite com outra. Pode não ser uma situação habitual, mas evita a monotonia; ademais, nenhuma delas sai perdendo com minha infidelidade. Se não tivesse minha atividade médica, dificilmente poderia consagrar à literatura minha liberdade de espírito e meus pensamentos perdidos''.Foi com tenacidade e conhecimento médico que Tchekhov enfrentou a tuberculose para concluir sua última e mais conhecida obra: O jardim das cerejeiras. A mesma tenacidade que marcaria a trajetória dos que se dedicaram às políticas sanitárias de combate à peste negra. ``Limpemos nossas roupas, nossos corpos, nosso alimento, nossa água, mantenhamos limpos. Limpemos nossas mentes e as mantenhamos limpas'', sugere Benjamin Ward Richardson (1818-1896) antecipando as críticas que sanitaristas receberiam de todo os lados, como Florence Nightingale (1820-1910) e Oswaldo Cruz (1872-1917).O sanitarista brasileiro, porém, merece um capítulo a parte, ou melhor, o livro Oswaldo Cruz, onde Scliar irá narrar a trajetória deste cientista, filho do médico Bento Gonçalves Cruz, um obsecado como Richardson por limpeza e disciplina. Tanto que quando Oswaldo Cruz cursava o primário, o pai mandou chamá-lo com urgência na escola. O menino saiu preocupado e ao chegar em casa foi informado, pelo pai, que havia deixado a cama desarrumada.A mesma disciplina irá marcar a trajetória do cientista, que ficou fascinado pelo instrumento inventado pelo comerciante holandês Anthony van Leeuwenhoek (1632-1723) para analisar a trama dos tecidos que comprava: o microscópio. Nele, outras tramas, as dos tecidos humanos, podiam ser vistas de forma ampliada, permitindo novos avanços na medicina.Oswaldo Cruz irá desenvolver suas pesquisas na Paris do fim do século, a partir de 1896, no Instituto Pasteur e tomará gosto pelas políticas sanitárias. Com Adolpho Lutz e Vital Brazil, inicia o século 20 pesquisando doenças que infestavam o país. Com Rodrigues Alves na Presidência da República, e Pereira Passos na prefeitura do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, Oswaldo Cruz iniciará a obra de sua vida e receberá críticas de todos os lados.Na tentativa de erradicar a cidade da febre amarela, em 1903, Oswaldo Cruz comanda um programa de vacinação obrigatória. As vozes de estudantes e políticos se levantam contra, Rui Barbosa considera a vacinação uma agressão não permitida ao corpo humano. Há motins e o movimento se intensifica em 1904. O sanitarista e o governo se desgastam. A vacinação é suspensa e um novo surto ocorre em 1908, com 9 mil casos registrados. Oswaldo retoma seu discurso e suas idéias e do alto do casarão mourisco de Manguinhos, onde pesquisa e comanda o órgão federal de Saúde Pública, recupera o respeito.

Publicado em 07/09/1996 no Caderno Idéias Fonte: JORNAL DO BRASIL

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