Monday, February 20, 2006

Um último sopro de vida


Nas novelas e contos reunidos
em dois últimos livros,
Caio Fernando Abreu,
morto há quatro meses,
deixa como herança
a crônica de um escritor à
procura de si mesmo

O escritor gaúcho Caio Fernando Abreu lutou até o último segundo contra a Aids, que o abateu às 13h10 do dia 25 de fevereiro de 1996, um domingo, aos 48 anos. ``Quero ir para casa. Pai, me leva para casa'', foi a sua última frase e seu último pedido. Também a que melhor sintetiza a busca desesperada de Caio por Caio, presente no livro póstumo Estranhos estrangeiros, que a Companhia das Letras acaba de editar, republicando na obra a novela Pela noite, que integrava originalmente o livro O triângulo das águas (Nova Fronteira, 1983; Siciliano, 1991).A inclusão desta novela, esclarece o editor Luiz Schwarcz em seu prefácio, atende ao pedido feito por Caio em um dos últimos postais que enviou da praia da Rosa, em Santa Catarina, onde se refugiou, em janeiro, para concluir Estranhos estrangeiros. O conto ``London, London'', presente no livro Pedras de Calcutá (Alfa-Omega, 1977) também está de volta neste livro póstumo.Caio não esconde na última obra o desespero de viver e as influências. Clarice Lispector, a quem o escritor recorreu às cartas e à obra para revelar que tinha Aids e manter-se firme, emerge nas imagens dos contos e na fusão de palavras por hífen como não-dor. Assim como Caio, a morte anunciada de Clarice, por câncer, conduziu-a à uma busca pela vida, pelas imagens e também pela procura do Eu.``Desvio o rosto, não devo me deter tempo demais em meus próprios olhos. Aumento o som da canção, olho para fora quando o trem dispara sobre os trilhos. Preciso ficar sempre atento. Ainda não anoiteceu, e alguns dizem que há castelos pelo caminho'', se convida na novela Bem longe de Marienbad, inédita no Brasil, mas publicada na França, e que Caio incluiu neste último livro.Nesta novela, o balanço da vida se faz presente a começar pelas referências que sempre acompanharam o trabalho de Caio. Neste caso, o filme de Alain Resnais, O ano passado em Marienbad, em que o verdadeiro e falso, a ilusão e a realidade se confundem. A Marienbad de Resnais é similar a de Caio, o olhar que se vê permite acreditar nos castelos dos paraísos, mesmo que de cartolinas que se dispersam com o vento.Mas Caio se recusa a dispersar. Sua busca nesta novela é intensa. Um homem procura outro, na verdade ele mesmo. Percorrendo ruas e cheiros, se deleitando com os prazeres simples e os gostos. Como os elefantes que voltam às origens para morrer, Caio volta para ser um estranho estrangeiro de si mesmo.Mas a sua angústia não é mórbida como a do crítico de cinema Jean Claude Bernadet, que no livro A doença, também da Companhia das Letras, disseca a dor do corpo diante da Aids. Caio disseca a dor da perda anunciada da vida e vive, transpira e procura. Bernadet assume a morte, Caio luta para assumir a vida.O ``Sopro de vida'' de Caio, é similar ao de Clarice, que elegeu o autor _ seu consciente _ e Ângela Praline _ seu inconsciente _ para travar a batalha final entre vida e morte. Caio elege a si mesmo, suas referências e o arcabouço intelectual, o que aprendeu durante 48 anos, na ânsia de repassar para os outros os monstros e as imagens que ainda jorravam em suas veias, imunes ao vírus da Aids.E Caio gostava de dizer para quem estivesse por perto que era um retrato vivo de todos os clichês do nosso tempo. ``Sou uma pessoa clichê. Nos anos 50, andei de motocicleta e dancei rock. Nos anos 60, fui preso como comunista. Depois, virei hippie e experimentei todas as drogas. Passei por uma fase punk e outra dance. Não há nenhuma experiência clichê de minha geração que eu não tenha vivivo. O HIV é simplesmente a face da minha morte''.

Publicado em 31/08/1996 no Caderno Idéias Fonte: JORNAL DO BRASIL

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