Monday, March 13, 2006

Prazer e agonia do corpo


João Gilberto Noll
insiste em novo romance
no jogo entre
solidão e desejo

O escritor gaúcho João Gilberto Noll amadureceu. E o fez em A céu aberto. O olhar indeciso, sôfrego e experimental da escrita de O cego e a dançarina (1980), a obra de estréia, a que se seguiu o verborrágico e sexual A fúria do corpo (1981), cedeu lugar a frases curtas e um estilo dramático de montar e desmontar _ deconstruir _ histórias e personagens, sem perder a indecisão, a sofreguidão e o experimentalismo que o distingue entre os escritores de sua geração.
E a história que conta A céu aberto é a de um garoto sem mãe arrasta o irmão febril pelas trincheiras de uma guerra à procura do pai, do dinheiro deste para comprar medicamento para o enfermo. E se vê em meio a uma luta, entre os homens de fardas roxas versus os de farda castanha, que não entende. Não consegue saber a razão porque lutam e porque são inimigos. Ainda assim, se alista e, depois, deserta. E perambula o mundo a bordo de um navio no qual entra clandestino para uma experiência também clandestina de sobrevivência. De procura que é o que move a obra de João Gilberto Noll. A sua e a de seus personagens.
É com prazer ritual que o escritor brinca sempre em exercer a arte da dúvida. A dúvida profana da busca do homem pelo homem, pelo seu complemento de carne e osso, e de pensamento. Do que é certeza e pode se tornar incerteza, do que é terra e pode tornar-se lodo, do que é sólido e pode se dissolver no ar. O que é e pode não ser. Seres andróginos habitam ainda seu universo, não mais delirantes como em A fúria do corpo, nem deliberadamente com fome de sexo, agora há fome de vida e liberdade. Claro sinal do amadurecimento.
E se em Hotel Atlântico (1989) prevalecia a busca por um texto mais enxuto como o de Marguerite Duras em O homem Atlântico, neste livro, este texto enxuto flui e o jogo de montar, a teoria dos jogos, envolve o prazer e a agonia resultantes da dúvida. Os conflitos esboçados em Bandoleiros (1985), O quieto animal da esquina (1991) e Harmada (1993) estão presente em A céu aberto. A solidão e o desejo são constantes na obra deste escritor, que insiste, para a felicidade de leitores, em inovar a forma de se contar uma história, que parte de lugares simples e evolui labirinticamente pelos medos de viver.
A metáfora da guerra que João Gilberto Noll traz à tona é a da dificuldade de descobrir porque lutamos. Homens lutam contra homens, sem razões aparentes. Na verdade, razões de Estado, que desestabilizam o sentido da procura de um ser por outro ser, ao mesmo tempo que oferecem a rara oportunidade da reflexão e ampliam os horizontes para que uma nova empreitada se apresente.
O irmão velho abandona a guerra por não encontrar neste campo minado de possibilidades os motivos da vida, o sentido e a compreensão do que somos feitos e para que existimos. Não resta saída a não ser desertar daquilo que é incapaz de dar uma informação precisa sobre a aventura de viver e suas razões. A expressão desertar não poderia ser mais feliz. É no mar, num navio que para de cidade em cidade, que está o deserto do desertor. E, finalmente, o encontro com o outro que se procura e que estava tão perto. Na figura do irmão metamorfoseado no amor. A mulher que se ama esconde em seu véu o irmão que se ama.
Mas, em João Gilberto Noll, este universo da conspiração, mesmo que esbarrando nos clichês da obviedade, ganham nova dimensão. E a sua busca consegue o raro feito de se transformar em palavras que interligadas têm o sentido de um mantra, que se repete e vão ganhando corpo na meditação a que se propõe.
O homem para João Gilberto Noll é um quieto animal da esquina à espera de salvação. Não a salvação pela palavra, mas pelo corpo, e nisso a sua obra mantém o fio de uma navalha afiada, que corta a carne para sangrar o desejo, quase sempre não realizado. É como um monge que o escritor conduz seus leitores à reflexão, à meditação que transcende do jogo do desejo, do querer.
Os personagens da obra deste escritor cinqüentão têm, a céu aberto, o mesmo perfil. Escorregam pelas pedras lodosas de Ouro Preto à procura de vida com a mesma facilidade com que se perdem nos centros urbanos e nas praias e mares desertos.
A grande qualidade de João Gilberto Noll está na elegância com que joga com as palavras e, conseqüentemente, com seus personagens. É o que o torna especial e especialista em brincar de esconde-esconde, deixando por detrás da dúvida o véu da certeza. E, melhor, fornecendo o instrumento cortante, com que se pode romper o véu e descobrir a história, o prazer que delas emana.
Tanto melhor que o seja agora, A céu aberto, que cumpre o prazeroso dever de comprovar que vinhos, quanto mais velhos, melhores. Têm um bouquet mais sofisticado. Têm uma fusão mais indelével e mais marcante do que é amargo, é doce, é claro e é escuro.
É preciso não ter certezas para melhor degustar as histórias de João Gilberto Noll. Esta, da última safra, está melhor. Foi curtida em barril de carvalho que, há 50 anos, destila a esperança e a alegria falhada, que é a tristeza, numa combinação que revela a aventura de viver. A escolha, aí sim, sôfrega, em descobrir de que lado estamos. Dos roxos ou dos castanhos? É preciso guerrear nossas certezas para descobrir. João Gilberto Noll se oferece a exercer este papel: o de entoar o mantra para que retiremos o manto das nossas dúvidas e das nossas certezas. E, em compensação, oferece o vinho, de boa cepa. (CARLOS FRANCO)

Publicado em 23/11/1996 no Caderno Idéias Fonte; JORNAL DO BRASIL

Monday, March 06, 2006

Sabor de um prato simples


Estreante faz retrato
de geração
que abandonou
o sonho e
aprendeu a ser só

Sem lenço, sem documento, como na canção de Caetano, a estreante Fernanda Young, 26 anos, conta a história da sua geração, a dos anos 90. E consegue, com eficiência, caminhar no terreno da quase ficção _ quase porque seus personagens são bem reais e bem estruturados na raiz, nos pés e na vergonha deles.
Vergonha dos pés tem a vantagem de, em 266 páginas, descrever o vazio dos dias que correm. Pode parecer muito _ 266 páginas _ mas não é. Sem cair no discurso fácil da verborragia, Fernanda dá vida a Ana. Uma mulher de classe média, nem boa, nem má. Dessas que vai levando e se deixa levar. Tem uma mãe, como todas, que a irrita porque tudo o que fala torna-se realidade, do tipo carregue o guarda-chuva que o tempo vai fechar e fecha. Ana a odeia por isso. E, ao mesmo tempo, a ama. Sente-se culpada por não dedicar mais tempo à construção do amor maternal.
O amor pelo corpo, pela vida, pela poesia, é a outra face de Ana. Uma romancista que lança palavras ao vento, ou melhor ao vazio e que se imagina sempre escrevendo um livro. Acaba por escrevê-lo no próprio corpo. Num documento, meio carta, meio bilhete de sua existência. ``Sou uma pessoa solitária. Mesmo acompanhada, sinto-me só. É minha natureza, não sei que espírito ruim me possui, ou quais os males que estou pagando, só sei que não consigo viver feliz. E nem mais quero, pois sinto-me totalmente despreparada e sem talento para a paz. O que tenho é tédio, tédio de tudo e tudo mais'', escreve Ana.
A niteroiense Fernanda não deixa o leitor ficar entendiado com a história que tem para contar. E o faz como quem respeita, mesmo que inadvertidamente, a tradição oral ao passá-la a limpo, para o papel. É assim, de forma simples, como quem despeja óleo na frigideira e frita um ovo, que Fernanda conta a história de Ana.
Não há nada de especial na narrativa, nem nas situações criadas por Fernanda para Ana, e é isso exatamente este o segredo de Vergonha dos pés: o de revelar o que há num copo vazio cheio de ar. O ar atmosférico dos anos 90, de vidas assepticamente corretas, desideologizadas como as eleições municipais do Rio e descompromissadas até com o prazer. O sexo, as drogas e o rock'n'roll são coisas do passado, estão no porão. A geração de Ana vive o tédio.
É isso o que mostra Fernanda. O diário de quem tem menos de 30 anos, não sonhou o sonho que se sonha junto. E aprendeu a viver só. Como o lendário Macunaíma de Mário de Andrade, os habitantes do livro de Fernanda, têm uma preguiça danada. Um medo danado de dar um passo adiante. São sapatos finos, largos, pontiagudos, macios, de couro, de plástico, de papelão, onde caibam, confortavelmente, os pés, que conduzem os personagens de Fernanda num tabuleiro high-tec de xadrez, onde as vitórias e derrotas têm o mesmo sabor das perdas e ganhos.
O amargor com que Ana vê o mundo onde Fernanda a oferece em banquete aos seus leitores não incomoda e nem afasta leitores. Há um agudo senso de humor na escrita. E, claro, carinho pelo personagem símbolo da geração da própria escritora. O amor aí é radical. Suavamente radical. A exasperação dos dias de Ana abrem espaço para o inusitado. O surgimento daqueles pequenos e desajeitados fatos que nos dão outra dimensão de vida.
E como em Fernanda ainda não há a preocupação com o estilo, talvez este primeiro teste , o de transcrever a história oral, dessas de botequins e bancos universiártios, rodrigueanamente como ela é, prevaleça no futuro. E novos retratos possam vir por aí. Mas nada será com antes. As obras que relatam comportamento e estilo de vida de uma geração são absurdamente temporais, marcadas para morrer numa biblioteca de antropologia, quando outros virão e restaram apenas estes registros como lembrança. O de Fernanda certamente conservará o sabor das coisas simples.

Publicado em 19/11/1996 no Caderno Idéias Fonte: JORNAL DO BRASIL

Thursday, March 02, 2006

Mistérios do sexo


Romance de estréia
de Heloisa Seixas
percorre o Rio dos anos 90
e a Paris do final do século 19
com prazeres esotéricos

Sexo e esoterismo. Ambos em imagens tórridas de sensualidade e buscas carregadas de magia. São fortes e vendáveis os dois elementos que a escritora e jornalista Heloisa Seixas reúne em seu primeiro romance, A porta, que chega às livrarias cercado de expectativas criadas pela sua primeira obra, o livro de contos Pente de Vênus.
No romance, Heloisa não perde a gastura e a forma tosca e densa do relato de situações limites, mas deixa que leitores desavisados se percam nos corredores que conduzirão à porta do mistério das vidas que dão vida à sua trama. Faz parte da seleção natural de quem, embora trabalhando com clichês, quer manter aceso o eruditismo.
É com olhar cúmplice e imagens barrocas, daquelas carregadas de detalhes, que Heloisa vai envolvendo os leitores numa trama, leitosa, escorregadia. Helena conhece Pedro, o homem de sua vida na proporção exata em que é Helena a mulher da vida de Pedro, num salão onde corpos se movimentam e se unem em meio ao prazer.
A partir desse encontro, as histórias de Helena e Pedro se delineam em linhas que se cruzam e separam até tornarem-se paralelas, daquelas que só no infinito podem novamente se encontrar, talvez nem isso. Não há preocupação cartesiana na discrição da imagem nem na concepção de Heloisa. Há sim a possibilidade de reencarnação. Descarnação do gesto e do corpo encarnado por Helena e Pedro.
É da sofreguidão e da busca que Heloisa tece a sua teia e captura seus personagens. Os horizontes e os labirintos em que Helena percorre em busca de tornar permanente o momento de entrega e volúpia são obscuros, como obscuras são as decisões de Pedro envoltas por um véu de culpa e fascinação, violência e paixão. E aí a expressão não é mera referência a Luchino Visconti, é presença mesmo, materializada nas pilastras e nos cenários. O desejo transcende, mas as imagens se fixam ao longo das décadas.
E, por isso também, e não deixa de ser surpreendente que a luz que irá iluminar o caminho da história narrada por Heloisa venha de um personagem de nome Clara. É Clara quem irá abrir as portas da percepção de Helena à reencarnação. A partir daí, depois de percorrer o território de magia do Rio dos anos 90, Heloisa volta seu olhar para uma Paris do final do século passado, onde Helena se reencontrará e encontrará novamente Pedro.
O texto de Heloisa abre as portas do esoterismo e da sensualidade para os leitores com segurança. Com frases bem construídas, Heloisa, porém, abusa da descrição das imagens, a ponto de algumas envelhecerem no decorrer da costura dos períodos. Há uma certa exasperação no ar denso da escrita de A porta, mas que segue e acompanha o estilo que a autora vem trabalhando, também em seus contos. O exagero não chega a cansar, só irrompe e aborta, em alguns momentos, o prazer da leitura em relação ao prazer da vivência que se escreve. (Carlos Franco)

Publicado em 02/11/1996 no Caderno Idéias Fonte: JORNAL DO BRASIL

Wednesday, March 01, 2006

Cigarro, álcool e loucura


Sam Shepard mostra
em 40 histórias
curtas o vazio
de vidas áridas

Homens e mulheres, alcóolatras e solitários, perdidos num deserto de imagens e diálogos áridos. Desde que roteirou, em 1983, o filme Paris, Texas do alemão Win Wenders, o ator e escritor americano Sam Shepard, que ganhou a Palma de Ouro de Cannes de 1984 por este trabalho, se debruça sobre o cotidiano dessa gente que fuma L & M, Lucky Strike e Malboro e bebe gim em quantidades astronômicas capazes de transformar os desertos em oásis líquidos. Para fazer justiça, mesmo antes disso, Sam Shepard já procurava, com insistência, desvendar o deserto e as luzes neons dos bares e móteis de beira de estrada do meio-oeste americano. Faz sucesso com isso.
Este ano, mais uma vez, é essa a viagem proposta no livro Cruzando o paraíso. São 40 histórias curtas, quase conto, quase novelas. Algumas histórias se interligam, com personagens que se repetem.
Um ator, como Sam Shepard, tenta conversar com um amigo. Não consegue. Seus personagens estão sempre centrados em si mesmo, nos seus discursos pessoais. Não há diálogo possível. O que chega a ser irritante. E nisso Sam Shepard consegue a interação com seus leitores. Quase exige uma reação. A indignação com o deserto e de certo modo a sua aceitação, como cenário e como palco de vidas que correm lentas em direção alguma.
Em outro dos momentos que cria, uma mulher abandona um homem num motel de beira de estrada. Vai para uma cidadezinha próxima. Muda de nome. Arruma emprego de garçonete e avisa a mãe, que antes recebeu um telefonema do homem. Os diálogos são curtos, curtíssimos. Tudo muito simples e desesperador. De perder o fôlego em pitadas de L & M, que faz juz à publicidade e vende horrores na Rodovia 66, por onde percorrem alguns dos personagens de Sam Shepard. Sempre fumando e bebendo. Sem parar.
Depois das duas, digamos cinco primeiras histórias deste novo livro de Sam Shepard, alguém pode se perguntar: o que atrai nesse deserto de homens e idéias pincelados por Sam Shepard? E a resposta certamente será: É isso. O nada, o vazio depois das noitadas e antes delas. Tudo desértico. Como perseguir o desejo caudaloso de viver em meio a chuvas de areia e granizo. Há um furacão em ebulição que passa e arrasta tudo, depois desaparece e tudo volta ao normal.
Sam Shepard mesmo querendo mergulhar nesse furacão fica na sua superfície. Apenas arranha para introjetar álcool e fumo na veia de seus leitores. As doses são generosas. Não suficientes para que respirem o suave ar das primaveras, ausentes nos desertos, onde só fortes e eriçados cactos dão flores e o sol é a estação.
Sam Shepard é estimulante e intrigante porque nos força a cruzar um paraíso que se quer acreditamos existente e que se o acreditássemos talvez não seria tão deserto. De homens e idéias. O autor de Buried child, livro com o qual fisgou o Prêmio Pulitzer de 1979 e o ator que esbarrou no Oscar de melhor ator por Os eleitos, em 1984, continua surpreendendo, mesmo que se repetindo em cenários e personagens. Mesmo que com histórias sem final feliz ou fantástico, mesmo que com uma realidade dura. De cigarro, de álcool e de loucura. Em doses sempre cavalares. (Carlos Franco)

Publicado em 26/10/1996 no Caderno Idéias Fonte: JORNAL DO BRASIL