Sabor de um prato simples

Estreante faz retrato
de geração
que abandonou
o sonho e
aprendeu a ser só
Sem lenço, sem documento, como na canção de Caetano, a estreante Fernanda Young, 26 anos, conta a história da sua geração, a dos anos 90. E consegue, com eficiência, caminhar no terreno da quase ficção _ quase porque seus personagens são bem reais e bem estruturados na raiz, nos pés e na vergonha deles.
Vergonha dos pés tem a vantagem de, em 266 páginas, descrever o vazio dos dias que correm. Pode parecer muito _ 266 páginas _ mas não é. Sem cair no discurso fácil da verborragia, Fernanda dá vida a Ana. Uma mulher de classe média, nem boa, nem má. Dessas que vai levando e se deixa levar. Tem uma mãe, como todas, que a irrita porque tudo o que fala torna-se realidade, do tipo carregue o guarda-chuva que o tempo vai fechar e fecha. Ana a odeia por isso. E, ao mesmo tempo, a ama. Sente-se culpada por não dedicar mais tempo à construção do amor maternal.
O amor pelo corpo, pela vida, pela poesia, é a outra face de Ana. Uma romancista que lança palavras ao vento, ou melhor ao vazio e que se imagina sempre escrevendo um livro. Acaba por escrevê-lo no próprio corpo. Num documento, meio carta, meio bilhete de sua existência. ``Sou uma pessoa solitária. Mesmo acompanhada, sinto-me só. É minha natureza, não sei que espírito ruim me possui, ou quais os males que estou pagando, só sei que não consigo viver feliz. E nem mais quero, pois sinto-me totalmente despreparada e sem talento para a paz. O que tenho é tédio, tédio de tudo e tudo mais'', escreve Ana.
A niteroiense Fernanda não deixa o leitor ficar entendiado com a história que tem para contar. E o faz como quem respeita, mesmo que inadvertidamente, a tradição oral ao passá-la a limpo, para o papel. É assim, de forma simples, como quem despeja óleo na frigideira e frita um ovo, que Fernanda conta a história de Ana.
Não há nada de especial na narrativa, nem nas situações criadas por Fernanda para Ana, e é isso exatamente este o segredo de Vergonha dos pés: o de revelar o que há num copo vazio cheio de ar. O ar atmosférico dos anos 90, de vidas assepticamente corretas, desideologizadas como as eleições municipais do Rio e descompromissadas até com o prazer. O sexo, as drogas e o rock'n'roll são coisas do passado, estão no porão. A geração de Ana vive o tédio.
É isso o que mostra Fernanda. O diário de quem tem menos de 30 anos, não sonhou o sonho que se sonha junto. E aprendeu a viver só. Como o lendário Macunaíma de Mário de Andrade, os habitantes do livro de Fernanda, têm uma preguiça danada. Um medo danado de dar um passo adiante. São sapatos finos, largos, pontiagudos, macios, de couro, de plástico, de papelão, onde caibam, confortavelmente, os pés, que conduzem os personagens de Fernanda num tabuleiro high-tec de xadrez, onde as vitórias e derrotas têm o mesmo sabor das perdas e ganhos.
O amargor com que Ana vê o mundo onde Fernanda a oferece em banquete aos seus leitores não incomoda e nem afasta leitores. Há um agudo senso de humor na escrita. E, claro, carinho pelo personagem símbolo da geração da própria escritora. O amor aí é radical. Suavamente radical. A exasperação dos dias de Ana abrem espaço para o inusitado. O surgimento daqueles pequenos e desajeitados fatos que nos dão outra dimensão de vida.
E como em Fernanda ainda não há a preocupação com o estilo, talvez este primeiro teste , o de transcrever a história oral, dessas de botequins e bancos universiártios, rodrigueanamente como ela é, prevaleça no futuro. E novos retratos possam vir por aí. Mas nada será com antes. As obras que relatam comportamento e estilo de vida de uma geração são absurdamente temporais, marcadas para morrer numa biblioteca de antropologia, quando outros virão e restaram apenas estes registros como lembrança. O de Fernanda certamente conservará o sabor das coisas simples.
Publicado em 19/11/1996 no Caderno Idéias Fonte: JORNAL DO BRASIL

0 Comments:
Post a Comment
<< Home