Os doces frutos da memória

Escritor mistura ficção
e política ao fazer das recordações
de um velho da Calábria
o antídoto contra a monotonia
e a frieza de um mundo globalizado
As frutas são lindas, parecem saídas de quadros naturalistas, como aqueles pêssegos chilenos que invadem os supermercados brasileiros neste final de inverno, mas não têm sabor. São como produtos cujos rótulos destacam as quantidades de calorias, proteínas e vitaminas e até mensagens contraditórias: café cafeinado faz bem à saúde versus café descafeinado faz bem à saúde. Tudo inodora e assepticamente embalado a favor da vida. E atormentador para os que ainda conseguem, ou querem, produtos e frutas saborosamente naturais e aromáticos, colhidos e produzidos conforme tradições seculares e regionais. E que têm vida e história.É com este pano de fundo que o ex-senador socialista, economista e escritor espanhol José Luis Sampedro desenvolveu um livro de ficção há dez anos, que se encontra na 40ª edição no seu país e que acaba de ser lançado no Brasil: O sorriso etrusco.Na narrativa, a crítica à globalização da economia e aos que acreditam na tese do fim da história não só é aguda como poeticamente desconcertante.Sampedro escolheu não a Espanha, mas a Itália como cenário. Com requintada e cuidadosa pesquisa, traçou um rico perfil do comportamento das últimas gerações a partir da trajetória do partigiano Salvatore Roncone. Um daqueles resistentes italianos que lutaram contra o fascismo.Ao completar 77 anos e tomado pelo câncer _ tratado como a Rusca porque o devora por dentro e o lembra uma cadela que ganhou de presente no pós-guerra _, Salvatore, que os companheiros partigiani chamavam de Bruno, é levado pelo filho, Renato, de Roccasera, uma pequena aldeola da Calábria, a Milão para tratar da doença.No trajeto, param no museu romano de Villa Giulia, onde tem sua atenção despertada por um sarcófago etrusco, no qual um casal deitado sorri. Na mente do partigiano, a visão ficará guardada como símbolo do bem viver. Uma daquelas imagens fortes que guardamos e que nos seguem e nos estimulam a constantes comparações.Em Milão, porém, novas e conflitantes emoções aguardam o velho combatente. O neto se chama Bruno. Andrea, a mulher de Renato se desculpa por ter quebrado a tradição de dar o nome do avô, o nonno, mas ele se enternece, pois trata-se de seu nome de guerra.O momento de paz dura pouco. O velho Roncone elegerá Andrea como seu alvo inimigo e a cidade industrial acinzentada de Milão como o front de uma nova guerra na qual sua missão será a de defender o neto dos novos e assépticos métodos de criação e de consumo. Roncone critica o fato de os pais deixarem o bebê desde cedo dormir sozinho para não criar dependência. E, durante a noite, quebrará esta determinação pediátrica.Nas brechas e ruelas de Milão, como se estivesse numa permanente guerrilha de reconhecimento do solo, o partigiani também encontrará alento numa mercearia, onde uma felliniana atendente o colocará, de novo, em contato com os aromas e sabores sulistas. Roncone formará uma pequena dispensa nos cantos do apartamento. E irá saborear na ausência do filho e da nora, queijos e vinhos, com cheiros marcantes e sabores fortes.No percurso da história, Roncone irá sentir ternura pela empregada, uma estudante que substitui a tia e por um estudante que, nas horas vagas, corta e mal as árvores das praças. O estudante acabará por levá-lo para a universidade, onde gravará, no departamento de antropologia e mitologia, depoimentos sobre as histórias e tradições do sul. Se sentirá importante e passará a dividir suas sensações com uma senhora que conhece numa praça.Hortênsia tem a mesma experiência de vida do partigiani e conhece e domina as situações em que ele se envolve e a envolve: o amor cego pelo neto e o desejo de se vingar do rival que deixou na aldeola e o impediu, quando prefeito, de fazer a reforma agrária. Ele torce para morrer depois do inimigo e isto o motiva a cuidar do câncer, da Rusca, com quem mantém um diálogo permanente e o deixa com menos alcatrão e nicotina só pelo desejo de ficar mais tempo perto do neto.Toda a história, se resumida e narrada assim, de forma direta, pode parecer antiga, como livros que envelhecem com o tempo e têm nuances piegas, mas este não é o caso de O sorriso etrusco. Sampedro trará para este enredo propostas e visões novas, resgatando a história , indicando caminhos a percorrer e a essência do passado como fator determinante do presente e do futuro.É nessa proposta que Sampedro, este combatente socialista indicado ao Senado pela Coroa espanhola após a queda do franquismo devido, sobretudo, à clareza de suas posições e o gosto pelo diálogo, irá caminhar com desenvoltura nas críticas a políticos e sociólogos que esquecem num canto da sala ou num quarto escuro, o homem. O neto, o Brunettino, a quem Roncone quer ensinar a história e as tradições da comida, princípio do prazer, e também do sexo, a sua realização plena. Tirar do quarto, pediatricamente recomendado, e mostrar a luz e as táticas para enfrentar o medo e os fantasmas.Sampedro, por meio de Roncone, se rebela contra aqueles que renegam a história e as tradições culturais na tentativa de substituí-las por fórmulas macroeconômicas. O economista Sampedro não desconhece essas fórmulas, mas critica pela frieza com que igualam, na vala comum da globalização, os hábitos culturais, dispensando os matizes e os temperos e a própria trajetória de um povo _ a aldeola de Roccasera. E mesmo suas contradições.Como John Kenneth Galbraith, que saiu em defesa de A sociedade justa, seu último livro, e Darcy Ribeiro com o seu Diários índios, Sampedro, que nasceu em 1917, quer alertar para a simplicidade de um sorriso, o etrusco, capaz de recuperar as coisas mais simples da vida, como os sabores e as cores que a rodeiam. Nesse objetivo, estarão presentes a história que as ruscas não irão devorar, além do vinho, que é resultado de uvas colhidas com as mãos e esmagadas com os pés e que se faz acompanhar, biblicamente, do pão sovado e temperado também com o suor do homem.Tudo absolutamente simples e singular como Os sonhos de Akira Kurosawa, porque para Sampedro viver é apenas ser feliz. E apreciar a chuva, a mesa, a cama. Esta deveria ser, para Roncone, a principal obra dos políticos, a de facilitar o acesso à esta felicidade e não de pôr no caminho obstáculos inodoros e assépticos, mesmo que policamente corretos conforme o receituário de manuais que seduzem ao oferecer a porta de entrada para um novo mundo, onde só a história e o homem, em sua plenitude, parecem ser obsoletos.
Publicado em 21/09/1996 no Caderno Idéias Fonte.: JORNAL DO BRASIL

1 Comments:
Lindo!!!Lindo!!!!
bjs,
Mary Lago
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