Mistérios do sexo

Romance de estréia
de Heloisa Seixas
percorre o Rio dos anos 90
e a Paris do final do século 19
com prazeres esotéricos
Sexo e esoterismo. Ambos em imagens tórridas de sensualidade e buscas carregadas de magia. São fortes e vendáveis os dois elementos que a escritora e jornalista Heloisa Seixas reúne em seu primeiro romance, A porta, que chega às livrarias cercado de expectativas criadas pela sua primeira obra, o livro de contos Pente de Vênus.
No romance, Heloisa não perde a gastura e a forma tosca e densa do relato de situações limites, mas deixa que leitores desavisados se percam nos corredores que conduzirão à porta do mistério das vidas que dão vida à sua trama. Faz parte da seleção natural de quem, embora trabalhando com clichês, quer manter aceso o eruditismo.
É com olhar cúmplice e imagens barrocas, daquelas carregadas de detalhes, que Heloisa vai envolvendo os leitores numa trama, leitosa, escorregadia. Helena conhece Pedro, o homem de sua vida na proporção exata em que é Helena a mulher da vida de Pedro, num salão onde corpos se movimentam e se unem em meio ao prazer.
A partir desse encontro, as histórias de Helena e Pedro se delineam em linhas que se cruzam e separam até tornarem-se paralelas, daquelas que só no infinito podem novamente se encontrar, talvez nem isso. Não há preocupação cartesiana na discrição da imagem nem na concepção de Heloisa. Há sim a possibilidade de reencarnação. Descarnação do gesto e do corpo encarnado por Helena e Pedro.
É da sofreguidão e da busca que Heloisa tece a sua teia e captura seus personagens. Os horizontes e os labirintos em que Helena percorre em busca de tornar permanente o momento de entrega e volúpia são obscuros, como obscuras são as decisões de Pedro envoltas por um véu de culpa e fascinação, violência e paixão. E aí a expressão não é mera referência a Luchino Visconti, é presença mesmo, materializada nas pilastras e nos cenários. O desejo transcende, mas as imagens se fixam ao longo das décadas.
E, por isso também, e não deixa de ser surpreendente que a luz que irá iluminar o caminho da história narrada por Heloisa venha de um personagem de nome Clara. É Clara quem irá abrir as portas da percepção de Helena à reencarnação. A partir daí, depois de percorrer o território de magia do Rio dos anos 90, Heloisa volta seu olhar para uma Paris do final do século passado, onde Helena se reencontrará e encontrará novamente Pedro.
O texto de Heloisa abre as portas do esoterismo e da sensualidade para os leitores com segurança. Com frases bem construídas, Heloisa, porém, abusa da descrição das imagens, a ponto de algumas envelhecerem no decorrer da costura dos períodos. Há uma certa exasperação no ar denso da escrita de A porta, mas que segue e acompanha o estilo que a autora vem trabalhando, também em seus contos. O exagero não chega a cansar, só irrompe e aborta, em alguns momentos, o prazer da leitura em relação ao prazer da vivência que se escreve. (Carlos Franco)
Publicado em 02/11/1996 no Caderno Idéias Fonte: JORNAL DO BRASIL

1 Comments:
adorei o comentário. vou comprar o livro.
edmur
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