Um moderno Don Juan

Romance divertido
transpõe mito do
eterno sedutor
para o Brasil
dos dias de hoje
Sem capa e espada, ou com esses dois elementos reciclados, Don Juan, o conquistador, continua em plena ação, no campo e nas cidades, para deleite de quem gosta de aventuras e o prazer de donzelas e mulheres mal amadas. Não só delas, mas de leitores que gostam de textos coloquiais, que têm o ritmo das conversas descontraídas dos contadores de causos. E Gabriel Lacerda sabe contar um causo, ou melhor, mostra vários, precisamente sete, que são os que integram o livro A redenção de Don Juan ou O dissoluto premiado.
Seguindo a tradição iluminista do mito de Don Juan, que sacraliza o pecado, oferecendo a este as dádivas do prazer e da vida, o personagem de Gabriel Lacerda, João Tirso de Molina, envolve os leitores nos caminhos de suas tramas e nos jogos de sedução.
O primeiro dos jogos, a sedução da empregada Zefa, uma serviçal de fazenda, dá a dimensão do texto solto e leve de Gabriel. E é a primeira a enveredar pelos caminhos da traição ao marido em troca do prazer da carne e daquilo que a alimenta, além do sexo, a comida e o teto mesmo, mais confortáveis. João Tirso de Molina é cruel quando conduzido pela escrita de Gabriel. Mas o humor o salva da crueldade, que chega a ser satírica.
Há também nesse conjunto de histórias situações hilariantes. A de Olga, a perua socialite, não poderia ser mais divertida. O escritor mergulha em cheio no mundo dessas desocupadas e deslumbradas mulheres que, natalinamente o ano todo, se vestem como árvores de ornamentos. E miam e sussurram como gatas no cio, irresistíveis para João Tirso de Molina.
O herói, redentor de mulheres, de Gabriel Lacerda, é urbano, e vive nos dias de hoje, atual como atuais são os desejos, em tempos de economia globalizada e cultura de massas, de se encontrar e encontrar o outro. João Tirso de Molina vai, nos seus passeios, exorcizando os medos religiosos dos pecados. Pecando, mulheres vão descobrindo o prazer e vivem melhor. Sem preconceitos.
O livro, é verdade, não é daqueles que nos conduzem à reflexão, nem apresenta um estilo vigoroso e renovador de contar histórias. A nova geração que está despontando na literatura brasileira não tem preocupação em renovar a linguagem. Conta histórias. E o faz, ainda bem, com humor, sem preocupações sociais e econômicas, e definições políticas.
As utopias da geração anos 90 são outras. O corpo está em movimento e em alta. E o prazer conduz à busca das palavras, que dão sentido às frases. O humor não é cortante, é escrachado mesmo. Tudo em takes visualmente rápidos, frases curtas e claras; desconcertantes.
Os mitos ainda persistem, porém, no inconsciente da geração anos 90. Don Juan e Cleópatras. Reciclados, é claro, com as roupas de grifes de um Mundo Mix, onde na coqueteleira do tempo se misturam e são servidos a frio, em abacaxis.
Don Juan de Gabriel Lacerda é isso. Leitura de verão. Daquelas que se leva para a praia até a chegada dos amigos que compõem as tradicionais turmas. E serve, como os coquetéis, para temperar o ambiente, ampliar os horizontes da piadas e dos causos. O manual do ``aprenda a ter sucesso no amor e no prazer'' ganhou, com este lançamento da editora Xenon, mais algumas páginas. Precisamente as 228 que são necessárias para que, cabalisticamente, João Tirso de Molina seduza sete mulheres, sem falar nas adjacentes.
``Olhando-se no espelho e relembrando Celina, João Tirso desejou por um momento ser capaz de ser amigo de uma mulher'', mesmo que para isso precisasse romper com o hábito de arrastar toda mulher para a cama mais próxima.
Publicado em 28/12/1996 no Caderno Idéias Fonte:JORNAL DO BRASIL

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