Thursday, February 23, 2006

A divina comédia de Ariadne e Júpiter


Shere Hite passa
a limpo os ícones
da cultura ocidental
A historiadora e pesquisadora Shere `Hite sempre surpreendeu o mundo com seus famosos relatórios _ sobre as mulheres, os homens, a família _ recheados de informações que sustentaram discussões e até teses de doutorado. Agora, 20 anos depois de consagrada, Shere Hite quis ir mais longe, para além das estrelas e a bordo de uma nave espacial pilotada por Cleópatra. Isso mesmo: Cleópatra, a rainha do Nilo em versão techno-pop e exibindo figurinos e adereços que bem poderiam ter saído das oficinas da Mocidade Independente de Padre Miguel a começar pela cor verde e branco que predomina nos figurinos confeccionados pela imaginação de Shere.Com o desejo de passar a limpo os ícones da cultura ocidental, em 1994, Shere Hite escreveu seu primeiro romance _ A divina comédia de Ariadne e Júpiter. Na verdade, o livro é uma espécie de manual para destilar o fígado e ampliar, para os mais engraçados, o elenco de piadas sobre Marx, Lênin, Getrude Stein, Madame Pompadour, John Kennedy, Marilyn Monroe, Hitler, Papa Pio IX, Alfred Hitchcock, Martin Luther King, Harry Truman e quem quer que figure no secular Who is who da humanidade.A história é, no mínimo, pitoresca. A feminista e semedeusa Ariadne Rite _ a própria Shere, é claro _, acompanhada de seu cão Júpiter, decide passear pela Terra, para fugir da calmaria dos céus. Ao ver que o meio ambiente e os animais são agredidos pelos ``terráqueos'', a extraterrestre reage. Vai à televisão e espalha confusão, batendo todos os recordes de audiência e sendo, logo após, ignorada pela mídia devido ao risco que representa: metralhadora giratória e verborrágica contra tudo e contra todos. Não há anunciante e elites que resistam.É claro que, tudo isso, com muita ironia e um texto limpo, divertido mesmo quando esbarra no ridículo. Esta bela mulher _ chega a lembrar Merryl Streep de cara limpa _ conduz seus leitores para suas fantasias sobre a humanidade e o pensamento ocidental com voracidade. E, melhor, Shere Hite sabe lidar com best-sellers e prova isso, mais uma vez. É irresistível o seu livro. São pouco mais de 300 páginas de bom humor e fantasia.Cleópatra, por exemplo, exibindo um modelito drag-queen, conduz os leitores de Shere Hite a uma festa extravagante. E brega, como o próprio espetáculo que será exibido no salão, onde os ícones ocidentais exibem seus pensamentos por meio de diálogos improváveis e cômicos.No melhor estilo das piadas irlandesas, Marilyn Monroe ouve de John Kennedy a razão porque oferece direitos trabalhistas e civis aos negros antes de fazê-lo em relação às mulheres: ``Há uma explicação contábil para isso: como os negros só representam cerca de 11% da população, não seria tão oneroso quanto dá-los às mulheres, que representam 50% da população''. E assim, Shere Hite vai mergulhando no inconsciente dos seus próprios mitos, desmistificando-os.Voltaire é outra vítima do humor de Shere, pois acusa a sua Ariadne de roubar suas idéias, mas é surpreendido pela ``ultrafeminista Marlene Dietrich'', o eterno Anjo azul das telas de cinema: ``Ouça, amigo, o Iluminismo acabou. Este é o mundo pós-moderno. A mitologia e a demagogia estão de volta. E o poder! Afinal de contas, a força é fascinante... E você sabe o que dizem: se o fim não justifica os meios, então o que justifica?..''.Nada justifica a seriedade, é o que quer provar uma irônica Shere Hite, brincando com a sua própria credibilidade e pondo-a a serviço do melhor e mais fino humor. A historiadora é forte candidata a redatora de programas do tipo Planeta & Casseta, com mais crueldade e charme. A cena final, então, é hilariante. Ariadne volta aos céus do Olimpo a bordo da nave espacial de Cleópatra puxada pela sua víbora de estimação que Shere Hite batizou de Jennifer. Veneno pouco é bobagem.

Publicado em 05/10/1996 no Caderno Idéias Fonte: JORNAL DO BRASIL

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