Wednesday, February 22, 2006

O sinuoso caminho para Roma


Autor premiado
volta à Itália do século 16
numa história temperada
com muitas discussões
teológicas

Os processos de beatificação do Vaticano, o primeiro passo para a transformação de um homem em santo, sempre renderam polêmicas e livros de ficção, aventura, crime e mistério. Os processos mais recentes envolvem duas mulheres que se tornaram mitos e modelos de comportamento: Evita Perón e Grace de Mônaco. Mas não deslancharam: neste século, o Vaticano está mais cauteloso quanto à beatificação e, sobretudo, à santificação. A opção tem sido a de premiar com o título personalidades ligadas à própria Igreja. O padre jesuíta José de Anchieta foi beatificado atendendo nos últimos anos pedidos do clero brasileiro com apoio de movimentos de base da própria Igreja. Mas santo ainda não é.No século 16, porém, esses processos eram mais rápidos dada a necessidade da Igreja católica de expandir seus domínios por meio de santos regionais, com apelo popular. Mais rápido ainda quando se tratavam de nobres que ofereciam templos e a participação da Igreja no comando do poder.O paulista Décio Tadeu Orlandi, 32 anos, mergulhou durante um ano e meio nas histórias relacionadas a este período. O resultado é o livro O santo.No texto, que segue a trilha de Paulo Coelho, com direito à reflexões bíblicas, Décio, que é metodista e coordenador do Centro de Idiomas do Instituto Metodista de Ensino Superior de São Bernardo do Campo, aproveita para criticar o uso das imagens de santos pelo catolicismo.Se este pequeno texto, de apenas 134 páginas, fosse lançado, no ano passado, quando do pontapé do pastor Van Helde, da evangélica Igreja Universal do Reino de Deus, na imagem de Nossa Aparecida, certamente, criaria mais polêmica.A crítica do metodista Décio às imagens dos santos criados pelo catolicismo é permeada por uma pretensa densidade teológica presente num texto elegante e de fácil leitura. Esta a sua principal capacidade que, somada à esta visão desmitificadora dos santos, lhe garantiu o Prêmio Casa de las Américas de melhor romance de língua portuguesa de 1994. O prêmio é patrocinado obviamente por Cuba, onde estes santos são tratados, como no livro, como meras imagens. A obra de Décio, no entanto, só foi editada este ano, depois de premiada. E, interessante, depois de praticamente esquecida a polêmica em torno das imagens.Como são estranhos os caminhos traçados pelo Senhor, no que concordam católicos, evangélicos, espíritas e afins, Décio costura, com ironia, a trajetória de Pietro Dilazzari. Um nobre italiano do século 16, que, para provocar o primo que se torna bispo de Perugia, decide expôr a fragilidade dos santos da Igreja e beatificar o seu pai.Nessa via crucis pela beatificação, Pietro acompanhará a eleição de papas e conversará com vários burocratas do Vaticano e alguns, poucos, religiosos mais firmes com quem manterá discussões teológicas que dão o verniz ao livro. E, nisso, os diálogos são mais felizes e interessantes do que a média dos que se pode ler em livros que se seguem esta trilha.A partir daí, o texto de Décio segue a trajetória dos jogos, Pietro ganha um tento e perde outro e, assim sucessivamente. Por ironia, não o pai, mas ele, após a morte, se tornará santo. Por ironia também, é nas palavras de Pietro que o metodista Décio encontrou espaço para expôr suas opiniões teológicas. Tudo muito previsível com a qualidade apenas de um texto correto, sem ousadias, mas capaz de se destacar em meio aos tantos exemplares existentes no mercado hoje sobre santos e anjos.

Publicado em 28/09/1996 no Caderno Idéias Fonte: JORNAL DO BRASIL

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