Wednesday, March 01, 2006

Cigarro, álcool e loucura


Sam Shepard mostra
em 40 histórias
curtas o vazio
de vidas áridas

Homens e mulheres, alcóolatras e solitários, perdidos num deserto de imagens e diálogos áridos. Desde que roteirou, em 1983, o filme Paris, Texas do alemão Win Wenders, o ator e escritor americano Sam Shepard, que ganhou a Palma de Ouro de Cannes de 1984 por este trabalho, se debruça sobre o cotidiano dessa gente que fuma L & M, Lucky Strike e Malboro e bebe gim em quantidades astronômicas capazes de transformar os desertos em oásis líquidos. Para fazer justiça, mesmo antes disso, Sam Shepard já procurava, com insistência, desvendar o deserto e as luzes neons dos bares e móteis de beira de estrada do meio-oeste americano. Faz sucesso com isso.
Este ano, mais uma vez, é essa a viagem proposta no livro Cruzando o paraíso. São 40 histórias curtas, quase conto, quase novelas. Algumas histórias se interligam, com personagens que se repetem.
Um ator, como Sam Shepard, tenta conversar com um amigo. Não consegue. Seus personagens estão sempre centrados em si mesmo, nos seus discursos pessoais. Não há diálogo possível. O que chega a ser irritante. E nisso Sam Shepard consegue a interação com seus leitores. Quase exige uma reação. A indignação com o deserto e de certo modo a sua aceitação, como cenário e como palco de vidas que correm lentas em direção alguma.
Em outro dos momentos que cria, uma mulher abandona um homem num motel de beira de estrada. Vai para uma cidadezinha próxima. Muda de nome. Arruma emprego de garçonete e avisa a mãe, que antes recebeu um telefonema do homem. Os diálogos são curtos, curtíssimos. Tudo muito simples e desesperador. De perder o fôlego em pitadas de L & M, que faz juz à publicidade e vende horrores na Rodovia 66, por onde percorrem alguns dos personagens de Sam Shepard. Sempre fumando e bebendo. Sem parar.
Depois das duas, digamos cinco primeiras histórias deste novo livro de Sam Shepard, alguém pode se perguntar: o que atrai nesse deserto de homens e idéias pincelados por Sam Shepard? E a resposta certamente será: É isso. O nada, o vazio depois das noitadas e antes delas. Tudo desértico. Como perseguir o desejo caudaloso de viver em meio a chuvas de areia e granizo. Há um furacão em ebulição que passa e arrasta tudo, depois desaparece e tudo volta ao normal.
Sam Shepard mesmo querendo mergulhar nesse furacão fica na sua superfície. Apenas arranha para introjetar álcool e fumo na veia de seus leitores. As doses são generosas. Não suficientes para que respirem o suave ar das primaveras, ausentes nos desertos, onde só fortes e eriçados cactos dão flores e o sol é a estação.
Sam Shepard é estimulante e intrigante porque nos força a cruzar um paraíso que se quer acreditamos existente e que se o acreditássemos talvez não seria tão deserto. De homens e idéias. O autor de Buried child, livro com o qual fisgou o Prêmio Pulitzer de 1979 e o ator que esbarrou no Oscar de melhor ator por Os eleitos, em 1984, continua surpreendendo, mesmo que se repetindo em cenários e personagens. Mesmo que com histórias sem final feliz ou fantástico, mesmo que com uma realidade dura. De cigarro, de álcool e de loucura. Em doses sempre cavalares. (Carlos Franco)

Publicado em 26/10/1996 no Caderno Idéias Fonte: JORNAL DO BRASIL

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