Thursday, February 23, 2006

Um passaporte e muitos sonhos


Romance sobre jovem
que parte para o exterior
resume experiência
de uma geração

Com sonhos na cabeça e bagagens nas mãos, jovens brasileiros enfrentaram filas nas portas dos consulados no final dos anos 80 para obterem vistos e, em alguns casos, uma sonhada cidadania estrangeira.Portugal, Japão, Itália, França, Espanha, Inglaterra, Irlanda, Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Austrália, qualquer país como destino, longe das agruras de um Brasil carcomido pela inflação com um mercado de trabalho em crise. Ainda hoje, o movimento continua, mas com ligeira baixa face à xenofobia que tomou conta da Europa e já atinge os Estados Unidos.Nessa Terra estrangeira, que o cineasta Walter Moreira Salles Júnior retratou com precisão, estes jovens brasileiros, em sua maioria recém-formados, acalentam o desejo de ganhar dinheiro e voltar para os trópicos.Esse movimento estimulou a também jovem escritora Regina Rheda a desenvolver seu primeiro romance _ Pau-de-arara, classe turística _ depois de ter conquistado o prêmio Jabuti de 1995 pelos seus contos.Em linguagem direta, objetiva, Regina faz um relato, uma espécie de diário de bordo de Rita Setemeglia, 30 anos, formada em cinema pela Universidade de São Paulo (USP). Rita foi demitida do serviço público, está sem namorado e decide pedir a cidadania italiana. Para isso, percorre os corredores da burocracia e, por fim, decide partir para outro país, a Inglaterra, onde aguardará a esperada cidadania, hospedada por um ex-namorado que está para casar com uma inglesa. Na Itália, Rita quer chegar em grande estilo: como cidadã.O que acontece com Rita é um sucedâneo de situações desgraçadamente cômicas. Regina conquista o leitor pela leveza, pelo tom coloquial. É como se estívessemos na mesa de um boteco ouvindo relatos de amigos que empreenderam a mesma busca. As suas frustrações, os desejos sexuais e de realização profissional. Estes os mais divertidos, pois brasileiros que, em suas casas, jamais lavaram um copo ou um garfo, se vêem, de repente, diante de pilhas de pratos. Pior ainda quando se deparam com banheiros imundos, que têm de deixar limpos.O livro, porém, não vai além desses relatos, fragmentos de vidas e de sonhos. A sorte de Regina é que estas histórias corriqueiramente banais podem ser bem- humoradas. E isso é a qualidade da escritora: extrair o humor das situações com simplicidade. As palavras, neste caso, não conspiram contra ela. Deixam o leitor relaxado, participante dos sucessos e insucessos de Rita, que poderia ser Maria, José, Eduardo, Marcos e João..., em meio a tantos que partiram em busca de felicidade em terras estrangeiras.Os brasileiros recém-formados são, como bem define Regina, os paus-de-arara da classe turística. Não fogem da seca em caminhões desconfortáveis, mas a bordo de aviões com passagens compradas a prestação. Para uma vida a prestação.Tanto que o sonho de todo brasileiro que está no exterior é retornar. Pelo menos, foi o que constatou pesquisa realizada pelo Banco do Brasil com os dekasseguis, os brasileiros de olhos puxados que trabalham duro no país do sol nascente. Cerca de 80% querem voltar e abrir seu próprio negócio com as economias guardadas mensalmente. A resposta estimulou o Sebrae, que dá assistência à micro e pequenas empresas, a instalar um balcão de negócios em Tóquio. É um sucesso.Só que a vantagem do livro de Regina é também a de não se prender a este final esperado. O inusitado conspira contra a personagem Rita e a favor do leitor. E as páginas desse diário de bordo parecem mais suaves. (Carlos Franco)
Publicado em 05/10/1996 no Caderno Idéias Fonte: JORNAL DO BRASIL

1 Comments:

Anonymous Anonymous said...

A maioria das pessoas deveriam ir atrás de uma oportunidade no exterior com um sonho, mas a maioria vai atrás mesmo é de dinheiro. Quando morei fora conheci muitos brasileiros que estavam lá para ganhar dinheiro, sem interesse em descobrir a cultura e os costumes locais, ou mesmo aprimorar seus conhecimentos de alguma forma. Muitos há mais de um ano não tinham familiaridade nenhuma com a língua, se sujeitando a empregos braçais e cargas horarias desumanas.
Enfim, cada um é cada um, a reforma dentro da alma de uma experiência dessa acontece de qualquer forma. Mas é engraçado ouvir esses mesmos brasileiros reclamarem do Brasil sendo que nem eles buscam sua própria evolução pessoal com qualquer informação cultural que seja.

edmur

9:12 AM  

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