Saturday, April 01, 2006

Um moderno Don Juan


Romance divertido
transpõe mito do
eterno sedutor
para o Brasil
dos dias de hoje


Sem capa e espada, ou com esses dois elementos reciclados, Don Juan, o conquistador, continua em plena ação, no campo e nas cidades, para deleite de quem gosta de aventuras e o prazer de donzelas e mulheres mal amadas. Não só delas, mas de leitores que gostam de textos coloquiais, que têm o ritmo das conversas descontraídas dos contadores de causos. E Gabriel Lacerda sabe contar um causo, ou melhor, mostra vários, precisamente sete, que são os que integram o livro A redenção de Don Juan ou O dissoluto premiado.
Seguindo a tradição iluminista do mito de Don Juan, que sacraliza o pecado, oferecendo a este as dádivas do prazer e da vida, o personagem de Gabriel Lacerda, João Tirso de Molina, envolve os leitores nos caminhos de suas tramas e nos jogos de sedução.
O primeiro dos jogos, a sedução da empregada Zefa, uma serviçal de fazenda, dá a dimensão do texto solto e leve de Gabriel. E é a primeira a enveredar pelos caminhos da traição ao marido em troca do prazer da carne e daquilo que a alimenta, além do sexo, a comida e o teto mesmo, mais confortáveis. João Tirso de Molina é cruel quando conduzido pela escrita de Gabriel. Mas o humor o salva da crueldade, que chega a ser satírica.
Há também nesse conjunto de histórias situações hilariantes. A de Olga, a perua socialite, não poderia ser mais divertida. O escritor mergulha em cheio no mundo dessas desocupadas e deslumbradas mulheres que, natalinamente o ano todo, se vestem como árvores de ornamentos. E miam e sussurram como gatas no cio, irresistíveis para João Tirso de Molina.
O herói, redentor de mulheres, de Gabriel Lacerda, é urbano, e vive nos dias de hoje, atual como atuais são os desejos, em tempos de economia globalizada e cultura de massas, de se encontrar e encontrar o outro. João Tirso de Molina vai, nos seus passeios, exorcizando os medos religiosos dos pecados. Pecando, mulheres vão descobrindo o prazer e vivem melhor. Sem preconceitos.
O livro, é verdade, não é daqueles que nos conduzem à reflexão, nem apresenta um estilo vigoroso e renovador de contar histórias. A nova geração que está despontando na literatura brasileira não tem preocupação em renovar a linguagem. Conta histórias. E o faz, ainda bem, com humor, sem preocupações sociais e econômicas, e definições políticas.
As utopias da geração anos 90 são outras. O corpo está em movimento e em alta. E o prazer conduz à busca das palavras, que dão sentido às frases. O humor não é cortante, é escrachado mesmo. Tudo em takes visualmente rápidos, frases curtas e claras; desconcertantes.
Os mitos ainda persistem, porém, no inconsciente da geração anos 90. Don Juan e Cleópatras. Reciclados, é claro, com as roupas de grifes de um Mundo Mix, onde na coqueteleira do tempo se misturam e são servidos a frio, em abacaxis.
Don Juan de Gabriel Lacerda é isso. Leitura de verão. Daquelas que se leva para a praia até a chegada dos amigos que compõem as tradicionais turmas. E serve, como os coquetéis, para temperar o ambiente, ampliar os horizontes da piadas e dos causos. O manual do ``aprenda a ter sucesso no amor e no prazer'' ganhou, com este lançamento da editora Xenon, mais algumas páginas. Precisamente as 228 que são necessárias para que, cabalisticamente, João Tirso de Molina seduza sete mulheres, sem falar nas adjacentes.
``Olhando-se no espelho e relembrando Celina, João Tirso desejou por um momento ser capaz de ser amigo de uma mulher'', mesmo que para isso precisasse romper com o hábito de arrastar toda mulher para a cama mais próxima.

Publicado em 28/12/1996 no Caderno Idéias Fonte:JORNAL DO BRASIL

Monday, March 13, 2006

Prazer e agonia do corpo


João Gilberto Noll
insiste em novo romance
no jogo entre
solidão e desejo

O escritor gaúcho João Gilberto Noll amadureceu. E o fez em A céu aberto. O olhar indeciso, sôfrego e experimental da escrita de O cego e a dançarina (1980), a obra de estréia, a que se seguiu o verborrágico e sexual A fúria do corpo (1981), cedeu lugar a frases curtas e um estilo dramático de montar e desmontar _ deconstruir _ histórias e personagens, sem perder a indecisão, a sofreguidão e o experimentalismo que o distingue entre os escritores de sua geração.
E a história que conta A céu aberto é a de um garoto sem mãe arrasta o irmão febril pelas trincheiras de uma guerra à procura do pai, do dinheiro deste para comprar medicamento para o enfermo. E se vê em meio a uma luta, entre os homens de fardas roxas versus os de farda castanha, que não entende. Não consegue saber a razão porque lutam e porque são inimigos. Ainda assim, se alista e, depois, deserta. E perambula o mundo a bordo de um navio no qual entra clandestino para uma experiência também clandestina de sobrevivência. De procura que é o que move a obra de João Gilberto Noll. A sua e a de seus personagens.
É com prazer ritual que o escritor brinca sempre em exercer a arte da dúvida. A dúvida profana da busca do homem pelo homem, pelo seu complemento de carne e osso, e de pensamento. Do que é certeza e pode se tornar incerteza, do que é terra e pode tornar-se lodo, do que é sólido e pode se dissolver no ar. O que é e pode não ser. Seres andróginos habitam ainda seu universo, não mais delirantes como em A fúria do corpo, nem deliberadamente com fome de sexo, agora há fome de vida e liberdade. Claro sinal do amadurecimento.
E se em Hotel Atlântico (1989) prevalecia a busca por um texto mais enxuto como o de Marguerite Duras em O homem Atlântico, neste livro, este texto enxuto flui e o jogo de montar, a teoria dos jogos, envolve o prazer e a agonia resultantes da dúvida. Os conflitos esboçados em Bandoleiros (1985), O quieto animal da esquina (1991) e Harmada (1993) estão presente em A céu aberto. A solidão e o desejo são constantes na obra deste escritor, que insiste, para a felicidade de leitores, em inovar a forma de se contar uma história, que parte de lugares simples e evolui labirinticamente pelos medos de viver.
A metáfora da guerra que João Gilberto Noll traz à tona é a da dificuldade de descobrir porque lutamos. Homens lutam contra homens, sem razões aparentes. Na verdade, razões de Estado, que desestabilizam o sentido da procura de um ser por outro ser, ao mesmo tempo que oferecem a rara oportunidade da reflexão e ampliam os horizontes para que uma nova empreitada se apresente.
O irmão velho abandona a guerra por não encontrar neste campo minado de possibilidades os motivos da vida, o sentido e a compreensão do que somos feitos e para que existimos. Não resta saída a não ser desertar daquilo que é incapaz de dar uma informação precisa sobre a aventura de viver e suas razões. A expressão desertar não poderia ser mais feliz. É no mar, num navio que para de cidade em cidade, que está o deserto do desertor. E, finalmente, o encontro com o outro que se procura e que estava tão perto. Na figura do irmão metamorfoseado no amor. A mulher que se ama esconde em seu véu o irmão que se ama.
Mas, em João Gilberto Noll, este universo da conspiração, mesmo que esbarrando nos clichês da obviedade, ganham nova dimensão. E a sua busca consegue o raro feito de se transformar em palavras que interligadas têm o sentido de um mantra, que se repete e vão ganhando corpo na meditação a que se propõe.
O homem para João Gilberto Noll é um quieto animal da esquina à espera de salvação. Não a salvação pela palavra, mas pelo corpo, e nisso a sua obra mantém o fio de uma navalha afiada, que corta a carne para sangrar o desejo, quase sempre não realizado. É como um monge que o escritor conduz seus leitores à reflexão, à meditação que transcende do jogo do desejo, do querer.
Os personagens da obra deste escritor cinqüentão têm, a céu aberto, o mesmo perfil. Escorregam pelas pedras lodosas de Ouro Preto à procura de vida com a mesma facilidade com que se perdem nos centros urbanos e nas praias e mares desertos.
A grande qualidade de João Gilberto Noll está na elegância com que joga com as palavras e, conseqüentemente, com seus personagens. É o que o torna especial e especialista em brincar de esconde-esconde, deixando por detrás da dúvida o véu da certeza. E, melhor, fornecendo o instrumento cortante, com que se pode romper o véu e descobrir a história, o prazer que delas emana.
Tanto melhor que o seja agora, A céu aberto, que cumpre o prazeroso dever de comprovar que vinhos, quanto mais velhos, melhores. Têm um bouquet mais sofisticado. Têm uma fusão mais indelével e mais marcante do que é amargo, é doce, é claro e é escuro.
É preciso não ter certezas para melhor degustar as histórias de João Gilberto Noll. Esta, da última safra, está melhor. Foi curtida em barril de carvalho que, há 50 anos, destila a esperança e a alegria falhada, que é a tristeza, numa combinação que revela a aventura de viver. A escolha, aí sim, sôfrega, em descobrir de que lado estamos. Dos roxos ou dos castanhos? É preciso guerrear nossas certezas para descobrir. João Gilberto Noll se oferece a exercer este papel: o de entoar o mantra para que retiremos o manto das nossas dúvidas e das nossas certezas. E, em compensação, oferece o vinho, de boa cepa. (CARLOS FRANCO)

Publicado em 23/11/1996 no Caderno Idéias Fonte; JORNAL DO BRASIL

Monday, March 06, 2006

Sabor de um prato simples


Estreante faz retrato
de geração
que abandonou
o sonho e
aprendeu a ser só

Sem lenço, sem documento, como na canção de Caetano, a estreante Fernanda Young, 26 anos, conta a história da sua geração, a dos anos 90. E consegue, com eficiência, caminhar no terreno da quase ficção _ quase porque seus personagens são bem reais e bem estruturados na raiz, nos pés e na vergonha deles.
Vergonha dos pés tem a vantagem de, em 266 páginas, descrever o vazio dos dias que correm. Pode parecer muito _ 266 páginas _ mas não é. Sem cair no discurso fácil da verborragia, Fernanda dá vida a Ana. Uma mulher de classe média, nem boa, nem má. Dessas que vai levando e se deixa levar. Tem uma mãe, como todas, que a irrita porque tudo o que fala torna-se realidade, do tipo carregue o guarda-chuva que o tempo vai fechar e fecha. Ana a odeia por isso. E, ao mesmo tempo, a ama. Sente-se culpada por não dedicar mais tempo à construção do amor maternal.
O amor pelo corpo, pela vida, pela poesia, é a outra face de Ana. Uma romancista que lança palavras ao vento, ou melhor ao vazio e que se imagina sempre escrevendo um livro. Acaba por escrevê-lo no próprio corpo. Num documento, meio carta, meio bilhete de sua existência. ``Sou uma pessoa solitária. Mesmo acompanhada, sinto-me só. É minha natureza, não sei que espírito ruim me possui, ou quais os males que estou pagando, só sei que não consigo viver feliz. E nem mais quero, pois sinto-me totalmente despreparada e sem talento para a paz. O que tenho é tédio, tédio de tudo e tudo mais'', escreve Ana.
A niteroiense Fernanda não deixa o leitor ficar entendiado com a história que tem para contar. E o faz como quem respeita, mesmo que inadvertidamente, a tradição oral ao passá-la a limpo, para o papel. É assim, de forma simples, como quem despeja óleo na frigideira e frita um ovo, que Fernanda conta a história de Ana.
Não há nada de especial na narrativa, nem nas situações criadas por Fernanda para Ana, e é isso exatamente este o segredo de Vergonha dos pés: o de revelar o que há num copo vazio cheio de ar. O ar atmosférico dos anos 90, de vidas assepticamente corretas, desideologizadas como as eleições municipais do Rio e descompromissadas até com o prazer. O sexo, as drogas e o rock'n'roll são coisas do passado, estão no porão. A geração de Ana vive o tédio.
É isso o que mostra Fernanda. O diário de quem tem menos de 30 anos, não sonhou o sonho que se sonha junto. E aprendeu a viver só. Como o lendário Macunaíma de Mário de Andrade, os habitantes do livro de Fernanda, têm uma preguiça danada. Um medo danado de dar um passo adiante. São sapatos finos, largos, pontiagudos, macios, de couro, de plástico, de papelão, onde caibam, confortavelmente, os pés, que conduzem os personagens de Fernanda num tabuleiro high-tec de xadrez, onde as vitórias e derrotas têm o mesmo sabor das perdas e ganhos.
O amargor com que Ana vê o mundo onde Fernanda a oferece em banquete aos seus leitores não incomoda e nem afasta leitores. Há um agudo senso de humor na escrita. E, claro, carinho pelo personagem símbolo da geração da própria escritora. O amor aí é radical. Suavamente radical. A exasperação dos dias de Ana abrem espaço para o inusitado. O surgimento daqueles pequenos e desajeitados fatos que nos dão outra dimensão de vida.
E como em Fernanda ainda não há a preocupação com o estilo, talvez este primeiro teste , o de transcrever a história oral, dessas de botequins e bancos universiártios, rodrigueanamente como ela é, prevaleça no futuro. E novos retratos possam vir por aí. Mas nada será com antes. As obras que relatam comportamento e estilo de vida de uma geração são absurdamente temporais, marcadas para morrer numa biblioteca de antropologia, quando outros virão e restaram apenas estes registros como lembrança. O de Fernanda certamente conservará o sabor das coisas simples.

Publicado em 19/11/1996 no Caderno Idéias Fonte: JORNAL DO BRASIL

Thursday, March 02, 2006

Mistérios do sexo


Romance de estréia
de Heloisa Seixas
percorre o Rio dos anos 90
e a Paris do final do século 19
com prazeres esotéricos

Sexo e esoterismo. Ambos em imagens tórridas de sensualidade e buscas carregadas de magia. São fortes e vendáveis os dois elementos que a escritora e jornalista Heloisa Seixas reúne em seu primeiro romance, A porta, que chega às livrarias cercado de expectativas criadas pela sua primeira obra, o livro de contos Pente de Vênus.
No romance, Heloisa não perde a gastura e a forma tosca e densa do relato de situações limites, mas deixa que leitores desavisados se percam nos corredores que conduzirão à porta do mistério das vidas que dão vida à sua trama. Faz parte da seleção natural de quem, embora trabalhando com clichês, quer manter aceso o eruditismo.
É com olhar cúmplice e imagens barrocas, daquelas carregadas de detalhes, que Heloisa vai envolvendo os leitores numa trama, leitosa, escorregadia. Helena conhece Pedro, o homem de sua vida na proporção exata em que é Helena a mulher da vida de Pedro, num salão onde corpos se movimentam e se unem em meio ao prazer.
A partir desse encontro, as histórias de Helena e Pedro se delineam em linhas que se cruzam e separam até tornarem-se paralelas, daquelas que só no infinito podem novamente se encontrar, talvez nem isso. Não há preocupação cartesiana na discrição da imagem nem na concepção de Heloisa. Há sim a possibilidade de reencarnação. Descarnação do gesto e do corpo encarnado por Helena e Pedro.
É da sofreguidão e da busca que Heloisa tece a sua teia e captura seus personagens. Os horizontes e os labirintos em que Helena percorre em busca de tornar permanente o momento de entrega e volúpia são obscuros, como obscuras são as decisões de Pedro envoltas por um véu de culpa e fascinação, violência e paixão. E aí a expressão não é mera referência a Luchino Visconti, é presença mesmo, materializada nas pilastras e nos cenários. O desejo transcende, mas as imagens se fixam ao longo das décadas.
E, por isso também, e não deixa de ser surpreendente que a luz que irá iluminar o caminho da história narrada por Heloisa venha de um personagem de nome Clara. É Clara quem irá abrir as portas da percepção de Helena à reencarnação. A partir daí, depois de percorrer o território de magia do Rio dos anos 90, Heloisa volta seu olhar para uma Paris do final do século passado, onde Helena se reencontrará e encontrará novamente Pedro.
O texto de Heloisa abre as portas do esoterismo e da sensualidade para os leitores com segurança. Com frases bem construídas, Heloisa, porém, abusa da descrição das imagens, a ponto de algumas envelhecerem no decorrer da costura dos períodos. Há uma certa exasperação no ar denso da escrita de A porta, mas que segue e acompanha o estilo que a autora vem trabalhando, também em seus contos. O exagero não chega a cansar, só irrompe e aborta, em alguns momentos, o prazer da leitura em relação ao prazer da vivência que se escreve. (Carlos Franco)

Publicado em 02/11/1996 no Caderno Idéias Fonte: JORNAL DO BRASIL

Wednesday, March 01, 2006

Cigarro, álcool e loucura


Sam Shepard mostra
em 40 histórias
curtas o vazio
de vidas áridas

Homens e mulheres, alcóolatras e solitários, perdidos num deserto de imagens e diálogos áridos. Desde que roteirou, em 1983, o filme Paris, Texas do alemão Win Wenders, o ator e escritor americano Sam Shepard, que ganhou a Palma de Ouro de Cannes de 1984 por este trabalho, se debruça sobre o cotidiano dessa gente que fuma L & M, Lucky Strike e Malboro e bebe gim em quantidades astronômicas capazes de transformar os desertos em oásis líquidos. Para fazer justiça, mesmo antes disso, Sam Shepard já procurava, com insistência, desvendar o deserto e as luzes neons dos bares e móteis de beira de estrada do meio-oeste americano. Faz sucesso com isso.
Este ano, mais uma vez, é essa a viagem proposta no livro Cruzando o paraíso. São 40 histórias curtas, quase conto, quase novelas. Algumas histórias se interligam, com personagens que se repetem.
Um ator, como Sam Shepard, tenta conversar com um amigo. Não consegue. Seus personagens estão sempre centrados em si mesmo, nos seus discursos pessoais. Não há diálogo possível. O que chega a ser irritante. E nisso Sam Shepard consegue a interação com seus leitores. Quase exige uma reação. A indignação com o deserto e de certo modo a sua aceitação, como cenário e como palco de vidas que correm lentas em direção alguma.
Em outro dos momentos que cria, uma mulher abandona um homem num motel de beira de estrada. Vai para uma cidadezinha próxima. Muda de nome. Arruma emprego de garçonete e avisa a mãe, que antes recebeu um telefonema do homem. Os diálogos são curtos, curtíssimos. Tudo muito simples e desesperador. De perder o fôlego em pitadas de L & M, que faz juz à publicidade e vende horrores na Rodovia 66, por onde percorrem alguns dos personagens de Sam Shepard. Sempre fumando e bebendo. Sem parar.
Depois das duas, digamos cinco primeiras histórias deste novo livro de Sam Shepard, alguém pode se perguntar: o que atrai nesse deserto de homens e idéias pincelados por Sam Shepard? E a resposta certamente será: É isso. O nada, o vazio depois das noitadas e antes delas. Tudo desértico. Como perseguir o desejo caudaloso de viver em meio a chuvas de areia e granizo. Há um furacão em ebulição que passa e arrasta tudo, depois desaparece e tudo volta ao normal.
Sam Shepard mesmo querendo mergulhar nesse furacão fica na sua superfície. Apenas arranha para introjetar álcool e fumo na veia de seus leitores. As doses são generosas. Não suficientes para que respirem o suave ar das primaveras, ausentes nos desertos, onde só fortes e eriçados cactos dão flores e o sol é a estação.
Sam Shepard é estimulante e intrigante porque nos força a cruzar um paraíso que se quer acreditamos existente e que se o acreditássemos talvez não seria tão deserto. De homens e idéias. O autor de Buried child, livro com o qual fisgou o Prêmio Pulitzer de 1979 e o ator que esbarrou no Oscar de melhor ator por Os eleitos, em 1984, continua surpreendendo, mesmo que se repetindo em cenários e personagens. Mesmo que com histórias sem final feliz ou fantástico, mesmo que com uma realidade dura. De cigarro, de álcool e de loucura. Em doses sempre cavalares. (Carlos Franco)

Publicado em 26/10/1996 no Caderno Idéias Fonte: JORNAL DO BRASIL

Thursday, February 23, 2006

A divina comédia de Ariadne e Júpiter


Shere Hite passa
a limpo os ícones
da cultura ocidental
A historiadora e pesquisadora Shere `Hite sempre surpreendeu o mundo com seus famosos relatórios _ sobre as mulheres, os homens, a família _ recheados de informações que sustentaram discussões e até teses de doutorado. Agora, 20 anos depois de consagrada, Shere Hite quis ir mais longe, para além das estrelas e a bordo de uma nave espacial pilotada por Cleópatra. Isso mesmo: Cleópatra, a rainha do Nilo em versão techno-pop e exibindo figurinos e adereços que bem poderiam ter saído das oficinas da Mocidade Independente de Padre Miguel a começar pela cor verde e branco que predomina nos figurinos confeccionados pela imaginação de Shere.Com o desejo de passar a limpo os ícones da cultura ocidental, em 1994, Shere Hite escreveu seu primeiro romance _ A divina comédia de Ariadne e Júpiter. Na verdade, o livro é uma espécie de manual para destilar o fígado e ampliar, para os mais engraçados, o elenco de piadas sobre Marx, Lênin, Getrude Stein, Madame Pompadour, John Kennedy, Marilyn Monroe, Hitler, Papa Pio IX, Alfred Hitchcock, Martin Luther King, Harry Truman e quem quer que figure no secular Who is who da humanidade.A história é, no mínimo, pitoresca. A feminista e semedeusa Ariadne Rite _ a própria Shere, é claro _, acompanhada de seu cão Júpiter, decide passear pela Terra, para fugir da calmaria dos céus. Ao ver que o meio ambiente e os animais são agredidos pelos ``terráqueos'', a extraterrestre reage. Vai à televisão e espalha confusão, batendo todos os recordes de audiência e sendo, logo após, ignorada pela mídia devido ao risco que representa: metralhadora giratória e verborrágica contra tudo e contra todos. Não há anunciante e elites que resistam.É claro que, tudo isso, com muita ironia e um texto limpo, divertido mesmo quando esbarra no ridículo. Esta bela mulher _ chega a lembrar Merryl Streep de cara limpa _ conduz seus leitores para suas fantasias sobre a humanidade e o pensamento ocidental com voracidade. E, melhor, Shere Hite sabe lidar com best-sellers e prova isso, mais uma vez. É irresistível o seu livro. São pouco mais de 300 páginas de bom humor e fantasia.Cleópatra, por exemplo, exibindo um modelito drag-queen, conduz os leitores de Shere Hite a uma festa extravagante. E brega, como o próprio espetáculo que será exibido no salão, onde os ícones ocidentais exibem seus pensamentos por meio de diálogos improváveis e cômicos.No melhor estilo das piadas irlandesas, Marilyn Monroe ouve de John Kennedy a razão porque oferece direitos trabalhistas e civis aos negros antes de fazê-lo em relação às mulheres: ``Há uma explicação contábil para isso: como os negros só representam cerca de 11% da população, não seria tão oneroso quanto dá-los às mulheres, que representam 50% da população''. E assim, Shere Hite vai mergulhando no inconsciente dos seus próprios mitos, desmistificando-os.Voltaire é outra vítima do humor de Shere, pois acusa a sua Ariadne de roubar suas idéias, mas é surpreendido pela ``ultrafeminista Marlene Dietrich'', o eterno Anjo azul das telas de cinema: ``Ouça, amigo, o Iluminismo acabou. Este é o mundo pós-moderno. A mitologia e a demagogia estão de volta. E o poder! Afinal de contas, a força é fascinante... E você sabe o que dizem: se o fim não justifica os meios, então o que justifica?..''.Nada justifica a seriedade, é o que quer provar uma irônica Shere Hite, brincando com a sua própria credibilidade e pondo-a a serviço do melhor e mais fino humor. A historiadora é forte candidata a redatora de programas do tipo Planeta & Casseta, com mais crueldade e charme. A cena final, então, é hilariante. Ariadne volta aos céus do Olimpo a bordo da nave espacial de Cleópatra puxada pela sua víbora de estimação que Shere Hite batizou de Jennifer. Veneno pouco é bobagem.

Publicado em 05/10/1996 no Caderno Idéias Fonte: JORNAL DO BRASIL

Um passaporte e muitos sonhos


Romance sobre jovem
que parte para o exterior
resume experiência
de uma geração

Com sonhos na cabeça e bagagens nas mãos, jovens brasileiros enfrentaram filas nas portas dos consulados no final dos anos 80 para obterem vistos e, em alguns casos, uma sonhada cidadania estrangeira.Portugal, Japão, Itália, França, Espanha, Inglaterra, Irlanda, Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Austrália, qualquer país como destino, longe das agruras de um Brasil carcomido pela inflação com um mercado de trabalho em crise. Ainda hoje, o movimento continua, mas com ligeira baixa face à xenofobia que tomou conta da Europa e já atinge os Estados Unidos.Nessa Terra estrangeira, que o cineasta Walter Moreira Salles Júnior retratou com precisão, estes jovens brasileiros, em sua maioria recém-formados, acalentam o desejo de ganhar dinheiro e voltar para os trópicos.Esse movimento estimulou a também jovem escritora Regina Rheda a desenvolver seu primeiro romance _ Pau-de-arara, classe turística _ depois de ter conquistado o prêmio Jabuti de 1995 pelos seus contos.Em linguagem direta, objetiva, Regina faz um relato, uma espécie de diário de bordo de Rita Setemeglia, 30 anos, formada em cinema pela Universidade de São Paulo (USP). Rita foi demitida do serviço público, está sem namorado e decide pedir a cidadania italiana. Para isso, percorre os corredores da burocracia e, por fim, decide partir para outro país, a Inglaterra, onde aguardará a esperada cidadania, hospedada por um ex-namorado que está para casar com uma inglesa. Na Itália, Rita quer chegar em grande estilo: como cidadã.O que acontece com Rita é um sucedâneo de situações desgraçadamente cômicas. Regina conquista o leitor pela leveza, pelo tom coloquial. É como se estívessemos na mesa de um boteco ouvindo relatos de amigos que empreenderam a mesma busca. As suas frustrações, os desejos sexuais e de realização profissional. Estes os mais divertidos, pois brasileiros que, em suas casas, jamais lavaram um copo ou um garfo, se vêem, de repente, diante de pilhas de pratos. Pior ainda quando se deparam com banheiros imundos, que têm de deixar limpos.O livro, porém, não vai além desses relatos, fragmentos de vidas e de sonhos. A sorte de Regina é que estas histórias corriqueiramente banais podem ser bem- humoradas. E isso é a qualidade da escritora: extrair o humor das situações com simplicidade. As palavras, neste caso, não conspiram contra ela. Deixam o leitor relaxado, participante dos sucessos e insucessos de Rita, que poderia ser Maria, José, Eduardo, Marcos e João..., em meio a tantos que partiram em busca de felicidade em terras estrangeiras.Os brasileiros recém-formados são, como bem define Regina, os paus-de-arara da classe turística. Não fogem da seca em caminhões desconfortáveis, mas a bordo de aviões com passagens compradas a prestação. Para uma vida a prestação.Tanto que o sonho de todo brasileiro que está no exterior é retornar. Pelo menos, foi o que constatou pesquisa realizada pelo Banco do Brasil com os dekasseguis, os brasileiros de olhos puxados que trabalham duro no país do sol nascente. Cerca de 80% querem voltar e abrir seu próprio negócio com as economias guardadas mensalmente. A resposta estimulou o Sebrae, que dá assistência à micro e pequenas empresas, a instalar um balcão de negócios em Tóquio. É um sucesso.Só que a vantagem do livro de Regina é também a de não se prender a este final esperado. O inusitado conspira contra a personagem Rita e a favor do leitor. E as páginas desse diário de bordo parecem mais suaves. (Carlos Franco)
Publicado em 05/10/1996 no Caderno Idéias Fonte: JORNAL DO BRASIL

Wednesday, February 22, 2006

O sinuoso caminho para Roma


Autor premiado
volta à Itália do século 16
numa história temperada
com muitas discussões
teológicas

Os processos de beatificação do Vaticano, o primeiro passo para a transformação de um homem em santo, sempre renderam polêmicas e livros de ficção, aventura, crime e mistério. Os processos mais recentes envolvem duas mulheres que se tornaram mitos e modelos de comportamento: Evita Perón e Grace de Mônaco. Mas não deslancharam: neste século, o Vaticano está mais cauteloso quanto à beatificação e, sobretudo, à santificação. A opção tem sido a de premiar com o título personalidades ligadas à própria Igreja. O padre jesuíta José de Anchieta foi beatificado atendendo nos últimos anos pedidos do clero brasileiro com apoio de movimentos de base da própria Igreja. Mas santo ainda não é.No século 16, porém, esses processos eram mais rápidos dada a necessidade da Igreja católica de expandir seus domínios por meio de santos regionais, com apelo popular. Mais rápido ainda quando se tratavam de nobres que ofereciam templos e a participação da Igreja no comando do poder.O paulista Décio Tadeu Orlandi, 32 anos, mergulhou durante um ano e meio nas histórias relacionadas a este período. O resultado é o livro O santo.No texto, que segue a trilha de Paulo Coelho, com direito à reflexões bíblicas, Décio, que é metodista e coordenador do Centro de Idiomas do Instituto Metodista de Ensino Superior de São Bernardo do Campo, aproveita para criticar o uso das imagens de santos pelo catolicismo.Se este pequeno texto, de apenas 134 páginas, fosse lançado, no ano passado, quando do pontapé do pastor Van Helde, da evangélica Igreja Universal do Reino de Deus, na imagem de Nossa Aparecida, certamente, criaria mais polêmica.A crítica do metodista Décio às imagens dos santos criados pelo catolicismo é permeada por uma pretensa densidade teológica presente num texto elegante e de fácil leitura. Esta a sua principal capacidade que, somada à esta visão desmitificadora dos santos, lhe garantiu o Prêmio Casa de las Américas de melhor romance de língua portuguesa de 1994. O prêmio é patrocinado obviamente por Cuba, onde estes santos são tratados, como no livro, como meras imagens. A obra de Décio, no entanto, só foi editada este ano, depois de premiada. E, interessante, depois de praticamente esquecida a polêmica em torno das imagens.Como são estranhos os caminhos traçados pelo Senhor, no que concordam católicos, evangélicos, espíritas e afins, Décio costura, com ironia, a trajetória de Pietro Dilazzari. Um nobre italiano do século 16, que, para provocar o primo que se torna bispo de Perugia, decide expôr a fragilidade dos santos da Igreja e beatificar o seu pai.Nessa via crucis pela beatificação, Pietro acompanhará a eleição de papas e conversará com vários burocratas do Vaticano e alguns, poucos, religiosos mais firmes com quem manterá discussões teológicas que dão o verniz ao livro. E, nisso, os diálogos são mais felizes e interessantes do que a média dos que se pode ler em livros que se seguem esta trilha.A partir daí, o texto de Décio segue a trajetória dos jogos, Pietro ganha um tento e perde outro e, assim sucessivamente. Por ironia, não o pai, mas ele, após a morte, se tornará santo. Por ironia também, é nas palavras de Pietro que o metodista Décio encontrou espaço para expôr suas opiniões teológicas. Tudo muito previsível com a qualidade apenas de um texto correto, sem ousadias, mas capaz de se destacar em meio aos tantos exemplares existentes no mercado hoje sobre santos e anjos.

Publicado em 28/09/1996 no Caderno Idéias Fonte: JORNAL DO BRASIL

Os doces frutos da memória


Escritor mistura ficção
e política ao fazer das recordações
de um velho da Calábria
o antídoto contra a monotonia
e a frieza de um mundo globalizado

As frutas são lindas, parecem saídas de quadros naturalistas, como aqueles pêssegos chilenos que invadem os supermercados brasileiros neste final de inverno, mas não têm sabor. São como produtos cujos rótulos destacam as quantidades de calorias, proteínas e vitaminas e até mensagens contraditórias: café cafeinado faz bem à saúde versus café descafeinado faz bem à saúde. Tudo inodora e assepticamente embalado a favor da vida. E atormentador para os que ainda conseguem, ou querem, produtos e frutas saborosamente naturais e aromáticos, colhidos e produzidos conforme tradições seculares e regionais. E que têm vida e história.É com este pano de fundo que o ex-senador socialista, economista e escritor espanhol José Luis Sampedro desenvolveu um livro de ficção há dez anos, que se encontra na 40ª edição no seu país e que acaba de ser lançado no Brasil: O sorriso etrusco.Na narrativa, a crítica à globalização da economia e aos que acreditam na tese do fim da história não só é aguda como poeticamente desconcertante.Sampedro escolheu não a Espanha, mas a Itália como cenário. Com requintada e cuidadosa pesquisa, traçou um rico perfil do comportamento das últimas gerações a partir da trajetória do partigiano Salvatore Roncone. Um daqueles resistentes italianos que lutaram contra o fascismo.Ao completar 77 anos e tomado pelo câncer _ tratado como a Rusca porque o devora por dentro e o lembra uma cadela que ganhou de presente no pós-guerra _, Salvatore, que os companheiros partigiani chamavam de Bruno, é levado pelo filho, Renato, de Roccasera, uma pequena aldeola da Calábria, a Milão para tratar da doença.No trajeto, param no museu romano de Villa Giulia, onde tem sua atenção despertada por um sarcófago etrusco, no qual um casal deitado sorri. Na mente do partigiano, a visão ficará guardada como símbolo do bem viver. Uma daquelas imagens fortes que guardamos e que nos seguem e nos estimulam a constantes comparações.Em Milão, porém, novas e conflitantes emoções aguardam o velho combatente. O neto se chama Bruno. Andrea, a mulher de Renato se desculpa por ter quebrado a tradição de dar o nome do avô, o nonno, mas ele se enternece, pois trata-se de seu nome de guerra.O momento de paz dura pouco. O velho Roncone elegerá Andrea como seu alvo inimigo e a cidade industrial acinzentada de Milão como o front de uma nova guerra na qual sua missão será a de defender o neto dos novos e assépticos métodos de criação e de consumo. Roncone critica o fato de os pais deixarem o bebê desde cedo dormir sozinho para não criar dependência. E, durante a noite, quebrará esta determinação pediátrica.Nas brechas e ruelas de Milão, como se estivesse numa permanente guerrilha de reconhecimento do solo, o partigiani também encontrará alento numa mercearia, onde uma felliniana atendente o colocará, de novo, em contato com os aromas e sabores sulistas. Roncone formará uma pequena dispensa nos cantos do apartamento. E irá saborear na ausência do filho e da nora, queijos e vinhos, com cheiros marcantes e sabores fortes.No percurso da história, Roncone irá sentir ternura pela empregada, uma estudante que substitui a tia e por um estudante que, nas horas vagas, corta e mal as árvores das praças. O estudante acabará por levá-lo para a universidade, onde gravará, no departamento de antropologia e mitologia, depoimentos sobre as histórias e tradições do sul. Se sentirá importante e passará a dividir suas sensações com uma senhora que conhece numa praça.Hortênsia tem a mesma experiência de vida do partigiani e conhece e domina as situações em que ele se envolve e a envolve: o amor cego pelo neto e o desejo de se vingar do rival que deixou na aldeola e o impediu, quando prefeito, de fazer a reforma agrária. Ele torce para morrer depois do inimigo e isto o motiva a cuidar do câncer, da Rusca, com quem mantém um diálogo permanente e o deixa com menos alcatrão e nicotina só pelo desejo de ficar mais tempo perto do neto.Toda a história, se resumida e narrada assim, de forma direta, pode parecer antiga, como livros que envelhecem com o tempo e têm nuances piegas, mas este não é o caso de O sorriso etrusco. Sampedro trará para este enredo propostas e visões novas, resgatando a história , indicando caminhos a percorrer e a essência do passado como fator determinante do presente e do futuro.É nessa proposta que Sampedro, este combatente socialista indicado ao Senado pela Coroa espanhola após a queda do franquismo devido, sobretudo, à clareza de suas posições e o gosto pelo diálogo, irá caminhar com desenvoltura nas críticas a políticos e sociólogos que esquecem num canto da sala ou num quarto escuro, o homem. O neto, o Brunettino, a quem Roncone quer ensinar a história e as tradições da comida, princípio do prazer, e também do sexo, a sua realização plena. Tirar do quarto, pediatricamente recomendado, e mostrar a luz e as táticas para enfrentar o medo e os fantasmas.Sampedro, por meio de Roncone, se rebela contra aqueles que renegam a história e as tradições culturais na tentativa de substituí-las por fórmulas macroeconômicas. O economista Sampedro não desconhece essas fórmulas, mas critica pela frieza com que igualam, na vala comum da globalização, os hábitos culturais, dispensando os matizes e os temperos e a própria trajetória de um povo _ a aldeola de Roccasera. E mesmo suas contradições.Como John Kenneth Galbraith, que saiu em defesa de A sociedade justa, seu último livro, e Darcy Ribeiro com o seu Diários índios, Sampedro, que nasceu em 1917, quer alertar para a simplicidade de um sorriso, o etrusco, capaz de recuperar as coisas mais simples da vida, como os sabores e as cores que a rodeiam. Nesse objetivo, estarão presentes a história que as ruscas não irão devorar, além do vinho, que é resultado de uvas colhidas com as mãos e esmagadas com os pés e que se faz acompanhar, biblicamente, do pão sovado e temperado também com o suor do homem.Tudo absolutamente simples e singular como Os sonhos de Akira Kurosawa, porque para Sampedro viver é apenas ser feliz. E apreciar a chuva, a mesa, a cama. Esta deveria ser, para Roncone, a principal obra dos políticos, a de facilitar o acesso à esta felicidade e não de pôr no caminho obstáculos inodoros e assépticos, mesmo que policamente corretos conforme o receituário de manuais que seduzem ao oferecer a porta de entrada para um novo mundo, onde só a história e o homem, em sua plenitude, parecem ser obsoletos.

Publicado em 21/09/1996 no Caderno Idéias Fonte.: JORNAL DO BRASIL