Thursday, February 23, 2006

A divina comédia de Ariadne e Júpiter


Shere Hite passa
a limpo os ícones
da cultura ocidental
A historiadora e pesquisadora Shere `Hite sempre surpreendeu o mundo com seus famosos relatórios _ sobre as mulheres, os homens, a família _ recheados de informações que sustentaram discussões e até teses de doutorado. Agora, 20 anos depois de consagrada, Shere Hite quis ir mais longe, para além das estrelas e a bordo de uma nave espacial pilotada por Cleópatra. Isso mesmo: Cleópatra, a rainha do Nilo em versão techno-pop e exibindo figurinos e adereços que bem poderiam ter saído das oficinas da Mocidade Independente de Padre Miguel a começar pela cor verde e branco que predomina nos figurinos confeccionados pela imaginação de Shere.Com o desejo de passar a limpo os ícones da cultura ocidental, em 1994, Shere Hite escreveu seu primeiro romance _ A divina comédia de Ariadne e Júpiter. Na verdade, o livro é uma espécie de manual para destilar o fígado e ampliar, para os mais engraçados, o elenco de piadas sobre Marx, Lênin, Getrude Stein, Madame Pompadour, John Kennedy, Marilyn Monroe, Hitler, Papa Pio IX, Alfred Hitchcock, Martin Luther King, Harry Truman e quem quer que figure no secular Who is who da humanidade.A história é, no mínimo, pitoresca. A feminista e semedeusa Ariadne Rite _ a própria Shere, é claro _, acompanhada de seu cão Júpiter, decide passear pela Terra, para fugir da calmaria dos céus. Ao ver que o meio ambiente e os animais são agredidos pelos ``terráqueos'', a extraterrestre reage. Vai à televisão e espalha confusão, batendo todos os recordes de audiência e sendo, logo após, ignorada pela mídia devido ao risco que representa: metralhadora giratória e verborrágica contra tudo e contra todos. Não há anunciante e elites que resistam.É claro que, tudo isso, com muita ironia e um texto limpo, divertido mesmo quando esbarra no ridículo. Esta bela mulher _ chega a lembrar Merryl Streep de cara limpa _ conduz seus leitores para suas fantasias sobre a humanidade e o pensamento ocidental com voracidade. E, melhor, Shere Hite sabe lidar com best-sellers e prova isso, mais uma vez. É irresistível o seu livro. São pouco mais de 300 páginas de bom humor e fantasia.Cleópatra, por exemplo, exibindo um modelito drag-queen, conduz os leitores de Shere Hite a uma festa extravagante. E brega, como o próprio espetáculo que será exibido no salão, onde os ícones ocidentais exibem seus pensamentos por meio de diálogos improváveis e cômicos.No melhor estilo das piadas irlandesas, Marilyn Monroe ouve de John Kennedy a razão porque oferece direitos trabalhistas e civis aos negros antes de fazê-lo em relação às mulheres: ``Há uma explicação contábil para isso: como os negros só representam cerca de 11% da população, não seria tão oneroso quanto dá-los às mulheres, que representam 50% da população''. E assim, Shere Hite vai mergulhando no inconsciente dos seus próprios mitos, desmistificando-os.Voltaire é outra vítima do humor de Shere, pois acusa a sua Ariadne de roubar suas idéias, mas é surpreendido pela ``ultrafeminista Marlene Dietrich'', o eterno Anjo azul das telas de cinema: ``Ouça, amigo, o Iluminismo acabou. Este é o mundo pós-moderno. A mitologia e a demagogia estão de volta. E o poder! Afinal de contas, a força é fascinante... E você sabe o que dizem: se o fim não justifica os meios, então o que justifica?..''.Nada justifica a seriedade, é o que quer provar uma irônica Shere Hite, brincando com a sua própria credibilidade e pondo-a a serviço do melhor e mais fino humor. A historiadora é forte candidata a redatora de programas do tipo Planeta & Casseta, com mais crueldade e charme. A cena final, então, é hilariante. Ariadne volta aos céus do Olimpo a bordo da nave espacial de Cleópatra puxada pela sua víbora de estimação que Shere Hite batizou de Jennifer. Veneno pouco é bobagem.

Publicado em 05/10/1996 no Caderno Idéias Fonte: JORNAL DO BRASIL

Um passaporte e muitos sonhos


Romance sobre jovem
que parte para o exterior
resume experiência
de uma geração

Com sonhos na cabeça e bagagens nas mãos, jovens brasileiros enfrentaram filas nas portas dos consulados no final dos anos 80 para obterem vistos e, em alguns casos, uma sonhada cidadania estrangeira.Portugal, Japão, Itália, França, Espanha, Inglaterra, Irlanda, Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Austrália, qualquer país como destino, longe das agruras de um Brasil carcomido pela inflação com um mercado de trabalho em crise. Ainda hoje, o movimento continua, mas com ligeira baixa face à xenofobia que tomou conta da Europa e já atinge os Estados Unidos.Nessa Terra estrangeira, que o cineasta Walter Moreira Salles Júnior retratou com precisão, estes jovens brasileiros, em sua maioria recém-formados, acalentam o desejo de ganhar dinheiro e voltar para os trópicos.Esse movimento estimulou a também jovem escritora Regina Rheda a desenvolver seu primeiro romance _ Pau-de-arara, classe turística _ depois de ter conquistado o prêmio Jabuti de 1995 pelos seus contos.Em linguagem direta, objetiva, Regina faz um relato, uma espécie de diário de bordo de Rita Setemeglia, 30 anos, formada em cinema pela Universidade de São Paulo (USP). Rita foi demitida do serviço público, está sem namorado e decide pedir a cidadania italiana. Para isso, percorre os corredores da burocracia e, por fim, decide partir para outro país, a Inglaterra, onde aguardará a esperada cidadania, hospedada por um ex-namorado que está para casar com uma inglesa. Na Itália, Rita quer chegar em grande estilo: como cidadã.O que acontece com Rita é um sucedâneo de situações desgraçadamente cômicas. Regina conquista o leitor pela leveza, pelo tom coloquial. É como se estívessemos na mesa de um boteco ouvindo relatos de amigos que empreenderam a mesma busca. As suas frustrações, os desejos sexuais e de realização profissional. Estes os mais divertidos, pois brasileiros que, em suas casas, jamais lavaram um copo ou um garfo, se vêem, de repente, diante de pilhas de pratos. Pior ainda quando se deparam com banheiros imundos, que têm de deixar limpos.O livro, porém, não vai além desses relatos, fragmentos de vidas e de sonhos. A sorte de Regina é que estas histórias corriqueiramente banais podem ser bem- humoradas. E isso é a qualidade da escritora: extrair o humor das situações com simplicidade. As palavras, neste caso, não conspiram contra ela. Deixam o leitor relaxado, participante dos sucessos e insucessos de Rita, que poderia ser Maria, José, Eduardo, Marcos e João..., em meio a tantos que partiram em busca de felicidade em terras estrangeiras.Os brasileiros recém-formados são, como bem define Regina, os paus-de-arara da classe turística. Não fogem da seca em caminhões desconfortáveis, mas a bordo de aviões com passagens compradas a prestação. Para uma vida a prestação.Tanto que o sonho de todo brasileiro que está no exterior é retornar. Pelo menos, foi o que constatou pesquisa realizada pelo Banco do Brasil com os dekasseguis, os brasileiros de olhos puxados que trabalham duro no país do sol nascente. Cerca de 80% querem voltar e abrir seu próprio negócio com as economias guardadas mensalmente. A resposta estimulou o Sebrae, que dá assistência à micro e pequenas empresas, a instalar um balcão de negócios em Tóquio. É um sucesso.Só que a vantagem do livro de Regina é também a de não se prender a este final esperado. O inusitado conspira contra a personagem Rita e a favor do leitor. E as páginas desse diário de bordo parecem mais suaves. (Carlos Franco)
Publicado em 05/10/1996 no Caderno Idéias Fonte: JORNAL DO BRASIL

Wednesday, February 22, 2006

O sinuoso caminho para Roma


Autor premiado
volta à Itália do século 16
numa história temperada
com muitas discussões
teológicas

Os processos de beatificação do Vaticano, o primeiro passo para a transformação de um homem em santo, sempre renderam polêmicas e livros de ficção, aventura, crime e mistério. Os processos mais recentes envolvem duas mulheres que se tornaram mitos e modelos de comportamento: Evita Perón e Grace de Mônaco. Mas não deslancharam: neste século, o Vaticano está mais cauteloso quanto à beatificação e, sobretudo, à santificação. A opção tem sido a de premiar com o título personalidades ligadas à própria Igreja. O padre jesuíta José de Anchieta foi beatificado atendendo nos últimos anos pedidos do clero brasileiro com apoio de movimentos de base da própria Igreja. Mas santo ainda não é.No século 16, porém, esses processos eram mais rápidos dada a necessidade da Igreja católica de expandir seus domínios por meio de santos regionais, com apelo popular. Mais rápido ainda quando se tratavam de nobres que ofereciam templos e a participação da Igreja no comando do poder.O paulista Décio Tadeu Orlandi, 32 anos, mergulhou durante um ano e meio nas histórias relacionadas a este período. O resultado é o livro O santo.No texto, que segue a trilha de Paulo Coelho, com direito à reflexões bíblicas, Décio, que é metodista e coordenador do Centro de Idiomas do Instituto Metodista de Ensino Superior de São Bernardo do Campo, aproveita para criticar o uso das imagens de santos pelo catolicismo.Se este pequeno texto, de apenas 134 páginas, fosse lançado, no ano passado, quando do pontapé do pastor Van Helde, da evangélica Igreja Universal do Reino de Deus, na imagem de Nossa Aparecida, certamente, criaria mais polêmica.A crítica do metodista Décio às imagens dos santos criados pelo catolicismo é permeada por uma pretensa densidade teológica presente num texto elegante e de fácil leitura. Esta a sua principal capacidade que, somada à esta visão desmitificadora dos santos, lhe garantiu o Prêmio Casa de las Américas de melhor romance de língua portuguesa de 1994. O prêmio é patrocinado obviamente por Cuba, onde estes santos são tratados, como no livro, como meras imagens. A obra de Décio, no entanto, só foi editada este ano, depois de premiada. E, interessante, depois de praticamente esquecida a polêmica em torno das imagens.Como são estranhos os caminhos traçados pelo Senhor, no que concordam católicos, evangélicos, espíritas e afins, Décio costura, com ironia, a trajetória de Pietro Dilazzari. Um nobre italiano do século 16, que, para provocar o primo que se torna bispo de Perugia, decide expôr a fragilidade dos santos da Igreja e beatificar o seu pai.Nessa via crucis pela beatificação, Pietro acompanhará a eleição de papas e conversará com vários burocratas do Vaticano e alguns, poucos, religiosos mais firmes com quem manterá discussões teológicas que dão o verniz ao livro. E, nisso, os diálogos são mais felizes e interessantes do que a média dos que se pode ler em livros que se seguem esta trilha.A partir daí, o texto de Décio segue a trajetória dos jogos, Pietro ganha um tento e perde outro e, assim sucessivamente. Por ironia, não o pai, mas ele, após a morte, se tornará santo. Por ironia também, é nas palavras de Pietro que o metodista Décio encontrou espaço para expôr suas opiniões teológicas. Tudo muito previsível com a qualidade apenas de um texto correto, sem ousadias, mas capaz de se destacar em meio aos tantos exemplares existentes no mercado hoje sobre santos e anjos.

Publicado em 28/09/1996 no Caderno Idéias Fonte: JORNAL DO BRASIL

Os doces frutos da memória


Escritor mistura ficção
e política ao fazer das recordações
de um velho da Calábria
o antídoto contra a monotonia
e a frieza de um mundo globalizado

As frutas são lindas, parecem saídas de quadros naturalistas, como aqueles pêssegos chilenos que invadem os supermercados brasileiros neste final de inverno, mas não têm sabor. São como produtos cujos rótulos destacam as quantidades de calorias, proteínas e vitaminas e até mensagens contraditórias: café cafeinado faz bem à saúde versus café descafeinado faz bem à saúde. Tudo inodora e assepticamente embalado a favor da vida. E atormentador para os que ainda conseguem, ou querem, produtos e frutas saborosamente naturais e aromáticos, colhidos e produzidos conforme tradições seculares e regionais. E que têm vida e história.É com este pano de fundo que o ex-senador socialista, economista e escritor espanhol José Luis Sampedro desenvolveu um livro de ficção há dez anos, que se encontra na 40ª edição no seu país e que acaba de ser lançado no Brasil: O sorriso etrusco.Na narrativa, a crítica à globalização da economia e aos que acreditam na tese do fim da história não só é aguda como poeticamente desconcertante.Sampedro escolheu não a Espanha, mas a Itália como cenário. Com requintada e cuidadosa pesquisa, traçou um rico perfil do comportamento das últimas gerações a partir da trajetória do partigiano Salvatore Roncone. Um daqueles resistentes italianos que lutaram contra o fascismo.Ao completar 77 anos e tomado pelo câncer _ tratado como a Rusca porque o devora por dentro e o lembra uma cadela que ganhou de presente no pós-guerra _, Salvatore, que os companheiros partigiani chamavam de Bruno, é levado pelo filho, Renato, de Roccasera, uma pequena aldeola da Calábria, a Milão para tratar da doença.No trajeto, param no museu romano de Villa Giulia, onde tem sua atenção despertada por um sarcófago etrusco, no qual um casal deitado sorri. Na mente do partigiano, a visão ficará guardada como símbolo do bem viver. Uma daquelas imagens fortes que guardamos e que nos seguem e nos estimulam a constantes comparações.Em Milão, porém, novas e conflitantes emoções aguardam o velho combatente. O neto se chama Bruno. Andrea, a mulher de Renato se desculpa por ter quebrado a tradição de dar o nome do avô, o nonno, mas ele se enternece, pois trata-se de seu nome de guerra.O momento de paz dura pouco. O velho Roncone elegerá Andrea como seu alvo inimigo e a cidade industrial acinzentada de Milão como o front de uma nova guerra na qual sua missão será a de defender o neto dos novos e assépticos métodos de criação e de consumo. Roncone critica o fato de os pais deixarem o bebê desde cedo dormir sozinho para não criar dependência. E, durante a noite, quebrará esta determinação pediátrica.Nas brechas e ruelas de Milão, como se estivesse numa permanente guerrilha de reconhecimento do solo, o partigiani também encontrará alento numa mercearia, onde uma felliniana atendente o colocará, de novo, em contato com os aromas e sabores sulistas. Roncone formará uma pequena dispensa nos cantos do apartamento. E irá saborear na ausência do filho e da nora, queijos e vinhos, com cheiros marcantes e sabores fortes.No percurso da história, Roncone irá sentir ternura pela empregada, uma estudante que substitui a tia e por um estudante que, nas horas vagas, corta e mal as árvores das praças. O estudante acabará por levá-lo para a universidade, onde gravará, no departamento de antropologia e mitologia, depoimentos sobre as histórias e tradições do sul. Se sentirá importante e passará a dividir suas sensações com uma senhora que conhece numa praça.Hortênsia tem a mesma experiência de vida do partigiani e conhece e domina as situações em que ele se envolve e a envolve: o amor cego pelo neto e o desejo de se vingar do rival que deixou na aldeola e o impediu, quando prefeito, de fazer a reforma agrária. Ele torce para morrer depois do inimigo e isto o motiva a cuidar do câncer, da Rusca, com quem mantém um diálogo permanente e o deixa com menos alcatrão e nicotina só pelo desejo de ficar mais tempo perto do neto.Toda a história, se resumida e narrada assim, de forma direta, pode parecer antiga, como livros que envelhecem com o tempo e têm nuances piegas, mas este não é o caso de O sorriso etrusco. Sampedro trará para este enredo propostas e visões novas, resgatando a história , indicando caminhos a percorrer e a essência do passado como fator determinante do presente e do futuro.É nessa proposta que Sampedro, este combatente socialista indicado ao Senado pela Coroa espanhola após a queda do franquismo devido, sobretudo, à clareza de suas posições e o gosto pelo diálogo, irá caminhar com desenvoltura nas críticas a políticos e sociólogos que esquecem num canto da sala ou num quarto escuro, o homem. O neto, o Brunettino, a quem Roncone quer ensinar a história e as tradições da comida, princípio do prazer, e também do sexo, a sua realização plena. Tirar do quarto, pediatricamente recomendado, e mostrar a luz e as táticas para enfrentar o medo e os fantasmas.Sampedro, por meio de Roncone, se rebela contra aqueles que renegam a história e as tradições culturais na tentativa de substituí-las por fórmulas macroeconômicas. O economista Sampedro não desconhece essas fórmulas, mas critica pela frieza com que igualam, na vala comum da globalização, os hábitos culturais, dispensando os matizes e os temperos e a própria trajetória de um povo _ a aldeola de Roccasera. E mesmo suas contradições.Como John Kenneth Galbraith, que saiu em defesa de A sociedade justa, seu último livro, e Darcy Ribeiro com o seu Diários índios, Sampedro, que nasceu em 1917, quer alertar para a simplicidade de um sorriso, o etrusco, capaz de recuperar as coisas mais simples da vida, como os sabores e as cores que a rodeiam. Nesse objetivo, estarão presentes a história que as ruscas não irão devorar, além do vinho, que é resultado de uvas colhidas com as mãos e esmagadas com os pés e que se faz acompanhar, biblicamente, do pão sovado e temperado também com o suor do homem.Tudo absolutamente simples e singular como Os sonhos de Akira Kurosawa, porque para Sampedro viver é apenas ser feliz. E apreciar a chuva, a mesa, a cama. Esta deveria ser, para Roncone, a principal obra dos políticos, a de facilitar o acesso à esta felicidade e não de pôr no caminho obstáculos inodoros e assépticos, mesmo que policamente corretos conforme o receituário de manuais que seduzem ao oferecer a porta de entrada para um novo mundo, onde só a história e o homem, em sua plenitude, parecem ser obsoletos.

Publicado em 21/09/1996 no Caderno Idéias Fonte.: JORNAL DO BRASIL

Tuesday, February 21, 2006

O estranho caso do Dr. Tchekhov


Moacyr Scliar recorre
à literatura para relembrar
a história da medicina

A história da medicina é a narrativa da luta do homem contra a morte desde que os primeiros seres se puseram a caminhar sobre dois pés e que antecede em muito o aparecimento da escrita. E passa a ser presença constante nos documentos tão logo os primeiros povos começaram a dominar a linguagem figurativa e, depois, escrita.Um dos primeiros registros escritos desta ciência está no Nei-tsing, um tratado médico atribuído ao imperador chinês Huang-ti (2.698-2.598 a. C.). Nele, alguns órgãos e suas funções são identificadas: ``O coração é o rei, os pulmões, os ministros, o fígado, o general, a vesícula, a justiça''.O médico-escritor Moacyr Scliar, a exemplo de outros de duplo-ofício como Rabelais, Tchekhov, Conan Doyle, Miguel Torga, Pedro Nava, Guimarães Rosa e Dyonelio Machado, é um apaixonado pela medicina. E, em A paixão transformada, mostra suas razões, conduzindo o leitor, por meio da literatura, para os corredores mais recônditos desta ciência. E melhor, o faz em dose dupla, pois também lançou, pela editora Relume Dumará, dentro da série Perfis do Rio, Oswaldo Cruz.Mas é na trajetória da medicina na literatura que Scliar resgatará pílulas reveladoras de grandes homens, seus medos e idéias através dos tempos. Charles Darwin (1809-1882), por exemplo, depois de assistir a duas operações como aluno de medicina na Inglaterra, mudou de idéia. Foi pesquisar os animais. Melhor para a humanidade que ganhou a teoria da evolução das espécies.O terror da mesa de cirurgia e da dor também está presente em cartas e livros. A dor, aliás, só será amenizada com medicamentos _ antes o era com bebida alcóolica e hipnotismo _ a partir do século 19, quando William Thomas Green Morton (1819-1868) descobre a anestesia e passa a viver um conflito: o direito sobre sua descoberta em contraponto à necessidade de que a descoberta se espalhasse, reduzindo as dores dos homens.Scliar passeia pelos escritos de Cornelius Celsus (53 a.C - 7 d. C), que identifica as quatro características do processo inflamatório _ rubor, tumor, calor e dor, e pelas superstições listadas por Serenus Sammonicus no fim do Império romano, onde a expressão abracadabra ganha força como instrumento de preservação de doenças, desde que escrita por inteiro e, em seguida, com cada uma das letras retirada. O papel com esta antecipação do que aparecia mais tarde na poesia concreta, deveria ser pendurado no pescoço, como um amuleto.Com histórias curtas, que, na média, não ultrapassam a duas páginas, o livro do doutor Scliar é de fácil e curiosa leitura. Com Anton Tchekhov, o autor dá a justificativa para este intenso trabalho de A paixão transformada: ``Fico satisfeito quando me dou conta de que tenho duas profissões, não uma. A medicina é a minha esposa legal, a literatura a minha amante. Quando canso de uma passo a noite com outra. Pode não ser uma situação habitual, mas evita a monotonia; ademais, nenhuma delas sai perdendo com minha infidelidade. Se não tivesse minha atividade médica, dificilmente poderia consagrar à literatura minha liberdade de espírito e meus pensamentos perdidos''.Foi com tenacidade e conhecimento médico que Tchekhov enfrentou a tuberculose para concluir sua última e mais conhecida obra: O jardim das cerejeiras. A mesma tenacidade que marcaria a trajetória dos que se dedicaram às políticas sanitárias de combate à peste negra. ``Limpemos nossas roupas, nossos corpos, nosso alimento, nossa água, mantenhamos limpos. Limpemos nossas mentes e as mantenhamos limpas'', sugere Benjamin Ward Richardson (1818-1896) antecipando as críticas que sanitaristas receberiam de todo os lados, como Florence Nightingale (1820-1910) e Oswaldo Cruz (1872-1917).O sanitarista brasileiro, porém, merece um capítulo a parte, ou melhor, o livro Oswaldo Cruz, onde Scliar irá narrar a trajetória deste cientista, filho do médico Bento Gonçalves Cruz, um obsecado como Richardson por limpeza e disciplina. Tanto que quando Oswaldo Cruz cursava o primário, o pai mandou chamá-lo com urgência na escola. O menino saiu preocupado e ao chegar em casa foi informado, pelo pai, que havia deixado a cama desarrumada.A mesma disciplina irá marcar a trajetória do cientista, que ficou fascinado pelo instrumento inventado pelo comerciante holandês Anthony van Leeuwenhoek (1632-1723) para analisar a trama dos tecidos que comprava: o microscópio. Nele, outras tramas, as dos tecidos humanos, podiam ser vistas de forma ampliada, permitindo novos avanços na medicina.Oswaldo Cruz irá desenvolver suas pesquisas na Paris do fim do século, a partir de 1896, no Instituto Pasteur e tomará gosto pelas políticas sanitárias. Com Adolpho Lutz e Vital Brazil, inicia o século 20 pesquisando doenças que infestavam o país. Com Rodrigues Alves na Presidência da República, e Pereira Passos na prefeitura do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, Oswaldo Cruz iniciará a obra de sua vida e receberá críticas de todos os lados.Na tentativa de erradicar a cidade da febre amarela, em 1903, Oswaldo Cruz comanda um programa de vacinação obrigatória. As vozes de estudantes e políticos se levantam contra, Rui Barbosa considera a vacinação uma agressão não permitida ao corpo humano. Há motins e o movimento se intensifica em 1904. O sanitarista e o governo se desgastam. A vacinação é suspensa e um novo surto ocorre em 1908, com 9 mil casos registrados. Oswaldo retoma seu discurso e suas idéias e do alto do casarão mourisco de Manguinhos, onde pesquisa e comanda o órgão federal de Saúde Pública, recupera o respeito.

Publicado em 07/09/1996 no Caderno Idéias Fonte: JORNAL DO BRASIL

Monday, February 20, 2006

Um último sopro de vida


Nas novelas e contos reunidos
em dois últimos livros,
Caio Fernando Abreu,
morto há quatro meses,
deixa como herança
a crônica de um escritor à
procura de si mesmo

O escritor gaúcho Caio Fernando Abreu lutou até o último segundo contra a Aids, que o abateu às 13h10 do dia 25 de fevereiro de 1996, um domingo, aos 48 anos. ``Quero ir para casa. Pai, me leva para casa'', foi a sua última frase e seu último pedido. Também a que melhor sintetiza a busca desesperada de Caio por Caio, presente no livro póstumo Estranhos estrangeiros, que a Companhia das Letras acaba de editar, republicando na obra a novela Pela noite, que integrava originalmente o livro O triângulo das águas (Nova Fronteira, 1983; Siciliano, 1991).A inclusão desta novela, esclarece o editor Luiz Schwarcz em seu prefácio, atende ao pedido feito por Caio em um dos últimos postais que enviou da praia da Rosa, em Santa Catarina, onde se refugiou, em janeiro, para concluir Estranhos estrangeiros. O conto ``London, London'', presente no livro Pedras de Calcutá (Alfa-Omega, 1977) também está de volta neste livro póstumo.Caio não esconde na última obra o desespero de viver e as influências. Clarice Lispector, a quem o escritor recorreu às cartas e à obra para revelar que tinha Aids e manter-se firme, emerge nas imagens dos contos e na fusão de palavras por hífen como não-dor. Assim como Caio, a morte anunciada de Clarice, por câncer, conduziu-a à uma busca pela vida, pelas imagens e também pela procura do Eu.``Desvio o rosto, não devo me deter tempo demais em meus próprios olhos. Aumento o som da canção, olho para fora quando o trem dispara sobre os trilhos. Preciso ficar sempre atento. Ainda não anoiteceu, e alguns dizem que há castelos pelo caminho'', se convida na novela Bem longe de Marienbad, inédita no Brasil, mas publicada na França, e que Caio incluiu neste último livro.Nesta novela, o balanço da vida se faz presente a começar pelas referências que sempre acompanharam o trabalho de Caio. Neste caso, o filme de Alain Resnais, O ano passado em Marienbad, em que o verdadeiro e falso, a ilusão e a realidade se confundem. A Marienbad de Resnais é similar a de Caio, o olhar que se vê permite acreditar nos castelos dos paraísos, mesmo que de cartolinas que se dispersam com o vento.Mas Caio se recusa a dispersar. Sua busca nesta novela é intensa. Um homem procura outro, na verdade ele mesmo. Percorrendo ruas e cheiros, se deleitando com os prazeres simples e os gostos. Como os elefantes que voltam às origens para morrer, Caio volta para ser um estranho estrangeiro de si mesmo.Mas a sua angústia não é mórbida como a do crítico de cinema Jean Claude Bernadet, que no livro A doença, também da Companhia das Letras, disseca a dor do corpo diante da Aids. Caio disseca a dor da perda anunciada da vida e vive, transpira e procura. Bernadet assume a morte, Caio luta para assumir a vida.O ``Sopro de vida'' de Caio, é similar ao de Clarice, que elegeu o autor _ seu consciente _ e Ângela Praline _ seu inconsciente _ para travar a batalha final entre vida e morte. Caio elege a si mesmo, suas referências e o arcabouço intelectual, o que aprendeu durante 48 anos, na ânsia de repassar para os outros os monstros e as imagens que ainda jorravam em suas veias, imunes ao vírus da Aids.E Caio gostava de dizer para quem estivesse por perto que era um retrato vivo de todos os clichês do nosso tempo. ``Sou uma pessoa clichê. Nos anos 50, andei de motocicleta e dancei rock. Nos anos 60, fui preso como comunista. Depois, virei hippie e experimentei todas as drogas. Passei por uma fase punk e outra dance. Não há nenhuma experiência clichê de minha geração que eu não tenha vivivo. O HIV é simplesmente a face da minha morte''.

Publicado em 31/08/1996 no Caderno Idéias Fonte: JORNAL DO BRASIL

Caio fez o testamento de sua geração


A face da morte, também para Caio, não é indolor, mas pode ser exercício de vida. Tanto que é em Frida Kahlo, a artista plástica mexicana tantas vezes retalhada em mesas cirúrgicas para manter-se de pé, que este gaúcho vai buscar a imagem para abrir o último conto que escreveu. ``Lo que importa es la no-ilusión. La mañana nace''. Caio não tinha ilusões quanto à sua condição de paciente terminal, mas transformava suas manhãs em arte.``Fica agora assim por favor parada contra esta janela de vidro que a luz do entardecer está batendo nos seus cabelos e eu quero guardar para sempre na memória esta imagem de você assim tão linda''. Imagens. São as imagens e os sons o que prevalece em Caio. ``A chuva é tão fina que nem chega a molhar, apenas gela. Tenho que ir em frente ao encontro de K, nesta ou em qualquer outra cidade do Norte ou do Sul, da Europa ou da América. Histórias como esta costumam acabar bem e, mesmo que não se viva feliz para sempre _ afinal, não se pode ter tudo _, deve haver pelo menos algum lugar quente e seco para abrigar o final da noite''.O tempo de Caio não foi suficiente para encontrar K em sua plenitude, mas encontrou o abrigo quente e seco ao lado dos pais Zael e Nair, dos irmãos Luís Felipe, Cláudia, Márcia e José Cláudio. K como a Ângela de Clarice são as imagens que fluem e esvoaçam borboleteando, e as quais seus autores gostariam de ser lembrados, por isso perseguiram nesta busca diante do imediatismo do corte, da cisão, de-cisão entre a vida e a morte.O testamento de Caio é isso. Expressa os clichês que vivenciou todos, e intensamente. Sua busca contínua por K e o gosto requintado pelos anjos travessos como Hilda Hilst, na casa de quem se refugiou por um tempo, também à procura de K. Ao encontro de um Caio por completo, metade homem, metade mulher, e de corpo inteiro, um gênero humano que fosse capaz de carregar todas as alegrias e as dores do mundo. Travessamente, suavemente a ponto de ser paixão.Do menino que com 6 anos começou a escrever e, aos 16 anos, publicou em revista de circulação nacional, Cláudia, o conto O príncipe sapo, ao livro Morangos mofados, de 1982, restou na obra póstuma de Caio exatamente o amor que os colecionadores de história têm pelas suas memórias.Um amor que transcende e faz com que o imcompleto Estranhos estrangeiros, que não chega a ser sua obra-prima, mas o esboço dela, seja aceito como um arremate deste testemunho de uma geração que queria ganhar o mundo e dividir seu conhecimento, suas experiências com o objetivo de quebrar as barreiras do preconceito e do medo. Do obscurantismo.Como o mago das cartas de Tarô, a alquimia a que recorre Caio em seu momento de adeus a K é travessa. Deixa transparecer que a sua busca não terminou e ainda há castelos lá fora, que outros irão de ver com seu olhar.E para não deixar dúvidas a Companhia das Letras reedita com o lançamento de Estranhos estrangeiros, As pedras de Calcutá (1977), onde expõe o horror da perseguição, dos que se sentem perseguidos, mas deixam se antever a liberdade. O vôo das borboletas que quase estilhaçam as asas como as cartolinas que dão vida a Marienbad de Resnais e os castelos de Caio.``Preciso ficar sempre atento. Ainda não anoiteceu, e alguns dizem que há castelos pelo caminho'', despede-se Caio para seguir sua viagem, deixando sobre a mesa o roteiro do encontro com K. Na eternidade. Nas manhãs de que falava Frida Kahlo. (Carlos Franco)

Publicado em 06/07/1996 no Caderno Idéias Fonte: JORNAL DO BRASIL

Friday, February 17, 2006

Com sabor de coisas simples


E. Annie Proulx trata, com
suavidade, a morte e pessoas
comuns que buscam a felicidade

A escritora E. Annie Proulx ganhou os prêmios Pulitzer de 1994, National Book Award de 1993 e o Internacional de Ficção do Irish Times 1994 pela simplicidade. É com economia de palavras, fina ironia e um gosto pelas coisas simples da vida que Annie tece a trama de Chegadas e partidas.A história de Quoyle, um jornalista de terceira categoria, que nasceu no Brooklyn, em Nova Iorque, e viveu em pequenas cidades provincianas não tem nenhum atrativo especial. É traído pela mulher, com quem tem dois filhos, trabalha na pequena redação de um jornal como free-lancer no qual faz a cobertura da política local. Não tem ambições e como se saísse das páginas de Nelson Rodrigues está sempre disposto a dizer para a mulher: ``perdoa-me por me traíres''.É a morte inesperada da mulher, Pétala Bear que, antes de cair de carro num abismo, vende as duas filhas do casal _ Bunny e Sunshine _, recuperadas depois por Quoyle, que dará impulso à trama. Com a ajuda de uma tia, Quoyle tentará recuperar-se dos dramas numa cidade fria, encravada numa encosta do Canadá.É aí que o livro ganhará fôlego e suave velocidade. Annie demonstra nas frases curtas, muitas vezes irônicas, o cotidiano de pessoas absolutamente desglamourizadas, cujo atrativo está na própria tessitura da pele, cortada pelos ventos frios. São pessoas que vivem com simplicidade. Se recuperam meio que abobadamente dos choques, talvez pela compreensão que, independente dos níveis sociais e das cidades, tudo o que o ser humano procura é a felicidade ou ao menos a construção dela.E a pergunta que fica parada no ar é se um homem sem qualidades, a não ser a respiração e o olhar acompanhado de um vocabulário simples, tem direito à felicidade. Annie acredita que sim, aposta na reconstrução da vida de Quoyle, sem deslumbramento, sem recorrer à densidade intelectual e psicológica comuns em livros desse tipo. E éaí que reside a virtude de Chegadas e partidas: a simplicidade.Dividindo a vida entre Terra Nova, a região cravada na encosta canadense, onde Quoyle buscará a redenção, e um apartamento no Brooklyn, ponto de partida de seu personagem, a jornalista Annie resolveu descrever no livro o universo que vivenciou. São pescadores e seus nós, que ela desata e apresenta capítulo a capítulo. E os vôos dos pássaros e o movimento das marés.Nesse ambiente calmo, Annie encontrou ainda uma forma suavemente poética de conviver com a morte, as chegadas e partidas. É com sensibilidade que ela descreve a morte, a partida, quando a criança pergunta o que é coma. ``É quando a pessoa perde os sentidos, fica inconsciente. Mas não morreu nem está dormindo. Alguma coisa no corpo ou na cabeça está machucada e o corpo espera um tempo para melhorar até poder levantar. É como quando seu pai liga o carro de manhã e espera ele esquentar. O motor está funcionando, mas o carro não está andando''.Com elegância, Annie chega à descrição da morte. ``Então Pétala está em coma. Dormindo, o pai disse. Não pode se levantar. - Bunny, preste atenção no que vou lhe dizer. Pétala morreu. Não está em coma. Não está dormindo. Seu pai disse o contrário para que você e Sunshine não ficassem muito tristes. Ele não queria ver vocês tristes.''A criança insiste e quer reencontrar o passáro ferido que estava numa das pedras das encarpadas encostas, mas no local só há uma pena, quase levantando vôo. Como os personagens de Annie que quase levantam vôos, mas estão presos à gravidade da vida e da Terra.

Publicado em 22/06/1996 no Caderno Idéias Fonte: JORNAL DO BRASIL

O Robin Hood das bolsas


O financista Soros revela,
em dois livros, como ganha bilhões
para investir nas suas idéias

O megainvestidor húngaro George Soros, 66 anos, está em alta, não só no mercado mundial de ações, onde é um dos maiores e mais bem sucedidos jogadores, mas também no editorial, com dois livros lançados, este mês, no Brasil: George Soros (uma entrevista a Krisztina Koenen copilada por Byron Wien e o próprio Soros) e A Alquimia das Finanças.A pergunta a ser feita, certamente será: porque esse senhor grisalho desperta tanto interesse? E três podem ser as respostas, todas corretas. Primeiro porque Soros é um jogador que vê mais longe e já pôs em xeque-mate o próprio Tesouro inglês, quando em 1992 embolsou US$ 2 bilhões apostando contra a libra esterlina. Deixou a Rainha em xeque e levou o dinheiro para casa.Segundo, porque Soros levou para o campo das finanças a filosofia de seu guru, o lorde inglês Sir Karl Popper, idealizador da teoria da sociedade aberta, que tem em Platão e Karl Marx seus principais inimigos. O megainvestidor segue à risca essa teoria e sempre investiu pesado por meio da Fundação Soros na propagação dessas idéias.Terceiro, porque Soros é um vencedor, que sobreviveu a duas guerras e à instauração do comunismo na Hungria. Tal como Popper, que foi comunista, Soros que chegou a conviver com o regime, tomou horror a esta ideologia. Seu forte, diz sem rodeios, sempre foi ganhar dinheiro, e muito; e o de Popper, prestígio, coroado com o aristocrático e monárquico título de Sir.Controlador de um fundo que movimenta US$ 11 bilhões em todo o mundo, Soros foi apontado ano passado pela revista americana Financial World como tendo mais dinheiro do que 64 países membros da ONU. E gasta anualmente US$ 300 milhões para fomentar a idéia de sociedade aberta em universidades de todo o mundo, com destaque para as do leste europeu. É sua forma de fazer filantropia.E Soros é generoso, tanto na distribuição do dinheiro que ganha com a especulação, como na entrega da receita desses ganhos. Em A alquimia da finanças, o leitor encontrará os cenários usados pelo megainvestidor para multiplicar seu dinheiro e seu encanto com o processo de decisão. Frações de segundo em negócios do mercado financeiro podem custar milhões. É ganhar ou perder. A história e a receita de Soros é a de um vencedor.Os desavisados e superficiais yuppies que circulam com desenvoltura pelo mercado financeiro certamente terão dificuldade em entender e conhecer melhor as idéias de Soros porque são permeadas pela visão filosófica. Destacadamente pelo estudo da epistemologia aprendida com Popper. Enfim, um universo de sutilezas que o transformou em peça rara no jogo de xadrez do mercado financeiro. Distante do estilo yuppie, onde a sutileza cede lugar à superficialidade e à ostentação.Para esse público e aqueles que ainda não conhecem o megainvestidor, exceto pelo noticiário dos jornais, o livro George Soros, uma longa e dinâmica entrevista em 316 páginas, é a melhor opção. Neste livro, Soros conta, com desenvoltura, a sua trajetória, da Hungria à fuga, sem visto das autoridades, para a Inglaterra. O trabalho numa corretora, primeiro como empregado, depois como sócio e desde 1969 como dono do seu próprio negócio: o Fundo Quantum.É espetacular o ganho que Soros conseguiu com suas aplicações. Quem, por exemplo, tivesse aplicado em 1969 o equivalente a US$ 1 mil e reinvestido os dividendos no próprio fundo, teria hoje a bagatela de US$ 2 milhões. É esse também o marketing de Soros, que atraia para o Quantum inúmeros investidores. E como bom negociante, até os pequenos podem depositar seus níqueis com Soros e aguardar as suas próximas jogadas certeiras.Nem mesmo o ex-presidente do FED, o Banco Central dos Estados Unidos, Paul Volker, resiste ao charme do jogador. E disse ao comentar esta obra que ``George Soros traz mais para o mundo das finanças do que a intuição e a fibra de um negociante nato _ e neste livro ele não se inibe em nos contar sobre isso. Filósofo de coração, George atribui seu sucesso a uma teoria da interação da realidade e percepção humana. O que realmente o move agora, dono de uma fortuna muito além de qualquer necessidade pessoal, é um tipo diferente de investimento estratégico _ investimento para contruir no leste europeu o tipo de sociedades abertas que ele faz valer na sua própria vida''.Sociedade aberta para ganhar dinheiro, com o qual, exatamente como num anúncio de cigarros do passado, pode se mandar buscar a felicidade. E George Soros garante que é feliz. Tem nos negócios a dosagem perfeita de adrenalina com que irriga a sua vida e suas idéias.

Publicado em 22/06/1996 no Caderno Idéias Fonte: JORNAL DO BRASIL


Paisagens baianas

Uma certa impressão

"No horizonte do outro lado do vale subiam, tornados minúsculos pela distância, os rolos de branca fumaça seca de mais um incêndio na mata. Era um verão de fogo, pensava o homem, um sol tão escorchante que mesmo ali na serra, ao lado da cachoeirinha cristalina que caía fria e quase em silêncio do penhasco coberto de limo, sob as altas árvores que protegiam os cacaueiros, parecia-lhe sentir o calor das chamas lá longe``.É assim, alinhavando impressões da paisagem nordestina e dos homens que a habitam, como no conto Chamas de verão, e, principalmente, colecionando histórias de gente simples, que Marcos Santarrita foi construindo Bahia minha.Nessa coletânea de histórias, Marcos apresenta as idéias que forjaram sua própria formação humanista. É com prazer, quase infanto-juvenil, que o autor conduz seus leitores pelas mesas dos bares baianos, onde se serve acarajé com Jean Paul Sartre. O existencialismo tropicalista e tropicaliente das paisagens por onde conduz os contos, crônicas e novelas reunidos no Bahia minha, onde o destaque é justamente a mesa onde ser sorve o existencialismo barroco, boêmio e curioso do autor.O próprio elo de ligação entre as histórias, a Bahia, é insuficiente para dar uma homegeneidade ao livro. O que, contudo, não chega a diluir o interesse pela leitura. Marcos Santarrita domina a língua em que escreve e seu texto flui com naturalidade. Suas histórias sensibilizam pela proximidade com quem as lê, como Noite feliz _ o Natal, curiosamente, é momento de balanço e alguma tristeza nostálgica depois que a infância se foi _ e Os policiais, daqueles que quanto mais perguntam, mais descobrem sombras e mais nos complicam. Mas é na novela, curta e singela, A herdeira, que Marcos destila sua sensibilidade e deixa aflorar uma outra qualidade: a capacidade de traçar perfis psicológicos, sem cair no pieguismo e nas armadilhas que fatos, muito explorados, deixam no caminho.Bahia minha, Marcos deixa claro, é terreno de suas reminescências, onde ainda habitam sabores e sonhos do passado. Um daqueles lugares que, ao passar, temos a sensação de querer voltar. É o que fez Marcos.´´Na sala de visitas, que a luz do sol torna quente mas não clara, Raquel olha em volta e tem a atenção atraída para o violão sobre a radiola. Pensa vagamente em apanhá-lo, pois é dia de aula e o professor não tardará a chegar, porém como está mais próxima do sofá deixa-se cair sobre ele, com uma esquisita sensação de cansaço que sabe muito bem não ser físico``. Marcos, ao contrário de seu personagem, pega a viola, solta os acordes e tenta, com essas histórias, afastar esse cansaço que não é físico, mas nostálgico.

Publicado em 27/04/1996 no Caderno Idéias Fonte: JORNAL DO BRASIL


Thursday, February 16, 2006

A sociedade justa segundo Galbraith

Defensor das regras do mercado prega
a ação do setor público contra a miséria


O economista canadense John Kenneth Galbraith amadureceu, aos 87 anos _ completará 88 em outubro _, a sua visão de mundo diante dos desafios impostos pela globalização da economia. E transformou em livro _ A sociedade justa, mesmo título do tratado de Walter Lippmann de 1937 _ reflexões apresentadas em seminário da Igreja Evangélica Alemã (Deustsche Evangelische Kirch) em 1993 e destiladas em conversas com outros acadêmicos de Harvard e com o filho James Galbraith, da Universidade do Texas.
A sociedade justa do pensador da Universidade de Harvard, que se notabilizou pelo best-seller A era da incerteza e assessorou o ex-presidente americano John F. Kennedy, é o que se pode chamar de um tratado de convivência macroeconômica entre homens politicamente corretos. Ou seja, economistas que não se limitam a combater a inflação. Têm propostas sociais e procuram' não desmontar o Estado, mas, ao contrário, fortalecê-lo.
Por isso mesmo, o novo livro de Galbraith é leitura obrigatória para aqueles que querem criticar, com seriedade, os neoliberais que, com pose de sociais-democratas, habitam hoje o Planalto Central do Brasil.
Esse pensador octagenário é um democrata liberal, seguidor de Keynes, e que se preocupa mais com o social _ as conseqüências sociais de decisões econômicas _ do que aqueles que do lado de baixo da linha do Equador se dizem liberais e estão mais próximos dos republicanos. Galbraith é crítico feroz desses republicanos e correlatos justamente porque não dão a menor a importância ao papel social e econômico a ser desempenhado pelo Estado. Exceto, é claro, quando precisam deste mesmo Estado para fomentar seus negócios e suas ambições políticas. Nesses casos, porém, poderão até encontrar apoio de Galbraith se este uso for para a construção da chamada sociedade justa. Mas, certamente, raras serão estas circunstâncias.
Outra peculiariedade desse pensador _ um dos mais importantes economistas do século 20 _ é a capacidade de aprimorar sua visão liberal ao longo dos anos, sem nunca rejeitar seus primeiros livros, onde o Estado aparece sempre não como coadjuvante, mas como ator central da trama política, econômica e social. Tanto como regulador do mercado e balizador de suas regras, como participante até dos investimentos.
No prefácio de apresentação da edição brasileira, que redigiu a pedido da Editora Campus, o próprio Galbraith apela para que a aceitação do papel do Brasil no sistema econômico global não se dê com o sacrifício da legislação e de serviços de assistência social. O corte dos gastos públicos e o ajuste fiscal, ensina o pensador, não podem comprometer os investimentos em educação e seguridade social, principalmente no momento em que o mundo do trabalho passa por uma fase de ajustes. E a miséria se distribui numa velocidade maior que a renda.
É nesse ponto que Galbraith vai tocar mais fundo neste novo livro, onde não faltam críticas aos gastos bélicos, inconcebíveis na sua opinião, e aos ataques sucessivos ao meio ambiente para o desenvolvimento industrial. A arma de Galbraith contra as desigualdades é a educação a qual destina um capítulo para enfatizar seu papel decisivo.
No que se refere à distribuição de renda, Galbraith destaca a essencialidade do imposto progressivo e do salário minímo mais elevado: ´´`O argumento mais comum contra ele (o salário mínimo) _ que reduzirá as oportunidades de emprego _ pode ser peremptoriamente refutado, por ser pretexto invariável de quem não quer pagar o salário, além de não contar com nenhum apoio empírico. Além de oferecer uma rede de segurança básica, a sociedade justa deve também proteger a renda do trabalho de seus membros menos favorecidos``.
O lançamento do livro no Brasil chega em bom momento: as reformas da previdência e administrativa estão em pauta. E Galbraith pode ser fonte para aqueles que querem argumentar o mérito das mudanças propostas e não apenas a sua superfície _ a de que se o governo vai ganhar ou perder. A sua avaliação crítica é pragmática: nenhum governo deve ampliar a miséria, mas combatê-la. E, finalizando mais contemporaneamente ainda, Galbraith destaca a importância de se evitar os fluxos migratórios de miséria. E a forma é simples: a modernização da estrutura do campo. O Eldorado dos Carajás é, na contramão, o exemplo do Eldorado do atraso e da miséria o qual combate em palavras e aguarda ações do Estado.
Para Galbraith, gastos do Estado contra a miséria são sempre justificaveis, pois integram ações para a formação da sociedade justa, onde há lugar para o mercado, o capital e o trabalho. Claro que tudo com regras politicamente corretas. Exatamente como esse senhor que tem dedicado a vida para a construção dessa utopia oposta a de Karl Marx, mas que nem por isso dispensa o Estado de suas funções.

Publicado em 27/04/1996 no Caderno Idéias Fonte: JORNAL DO BRASIL

Reportagem de uma época


Um crime no cenário deslumbrante do Golden Gate Park, em São Francisco, nos Estados Unidos, é o ponto de partida do instigante livro-reportagem do jornalista Marco Lacerda, Clube dos homens bonitos, que a Editora Objetiva acaba de lançar.
A partir da história real de um brasileiro encontrado morto no local, Marco Lacerda mergulha no submundo de São Francisco e atravessa os anos loucos do final da década de 60 até os anos 90, onde os ventos sombrios da Aids diluem a alegria esfuziante desta cidade americana. Com passagens pelo Nepal e Minas Gerais, o autor constrói um texto dinâmico e arrojado, uma reportagem policial com pinceladas precisas da melhor da literatura.
Em Favela high-tech, lançado há dois anos, Marco Lacerda já deixava transpassar as qualidades literárias de seu texto e a sua vontade de desvendar o submundo das megacidades. A prostituição em Tóquio deste livro cede lugar a de São Francisco e, unindo as duas obras, o Zen como ponto de equilíbrio.
É a partir da sugestão de um monge de que ´´os segredos da vida estão nas sombras, nunca a céu aberto`` e ´´se você quiser entender os segredos dos mortos, procure a resposta na sombra dos vivos``, que Marco Lacerda irá caminhar nas sombras, conduzindo com perspicácia o leitor.
Para reconstituir a história real dos personagens, Marco traça um painel detalhado da aristocracia mineira no início da ditadura militar. O personagem central da trama, o milionário Bruno Fraga, filho do empreiteiro Herculano Fraga, tem um destino traçado pelos pais: curso de Direito em Harvard, em 1968, casamento em sociedade e, posteriormente, como filho único, o comando das empresas da família.
O endurecimento da ditadura militar, em 1968, quando Bruno completa 18 anos e deveria partir para os Estados Unidos, abrirá, porém, os seus olhos para outra realidade: a repressão financiada pela aristocracia empresarial na figura de seu pai. E, ao mesmo tempo, a descoberta de um mundo novo no Stage Door, um bar de mezanino do Teatro Marília, em Belo Horizonte: drogas, sexo e rock. Pelas mãos de Chocolate Jorge, uma espécie de guru anarquista da turma desse bar, Bruno irá descobrir o LSD e a homossexualidade. E, na seqüência, a reação familiar, a perda do amigo recém-conquistado e, depois, o vazio. Por fim, a viagem aos Estados Unidos, não mais para estudar em Harvard, mas para viver por conta e risco próprio em São Francisco.
Como tantos brasileiros que partem para outro país, Bruno irá se virar por meio de pequenos biscates até se transformar numa das mais famosas drag queens do Clube dos Homens Bonitos de São Francisco e perder sua identidade em meio a drogas e sexo até se encontrar num templo Zen.
Ao seu encontro parte de Belo Horizonte, outro jovem, Teodoro Nava, à procura de sua identidade. Marco irá conviver com Bruno na tentativa de desvendar essa busca de Teodoro. Entrará nos templos Zen e conviverá com o monge Taizen Korematzu, acusado da morte do brasileiro, encontrado com um tiro e sinais de violência no corpo no Golden Gate Park.
Esse é o mistério do livro-reportagem, cujas sombras serão pinceladas ao longo de 130 páginas até o surpreendente desfecho final. Uma das qualidades de Marco Lacerda está no uso adequado da tática do quebra-cabeça, que leva o leitor a percorrer ansioso a história à procura da verdade, que os personagens ocultam.
Outra característica marcante na obra de Marco é o falar a verdade, sem preconceitos. Os fatos apresentados com crueldade, não escondem a sua preocupação em preservar e querer entender o outro. E, sobretudo, fazer com que o leitor compreenda a geração, na qual se enquadra, que conviveu com o golpe militar, a repressão, as alucinantes viagens dos anos 60, as utopias e a morte, nesse caso, representada pela Aids, que diluiu muitos dos sonhos de liberação sexual. (Carlos Franco)

Publicado em 06/04/1996 no Caderno Idéias Fonte: JORNAL DO BRASIL

Fiapos bergmanianos


História de um casal no
interior dos Estados Unidos
focaliza a zona sombria
de vidas simples


O texto seco como o de Marguerite Duras e as imagens rurais como as de William Faulkner são características marcantes na obra do escritor americano Jim Harrison, que, não por acaso, a exemplo de Duras, tem inspirado cineastas a transporem para a tela seus livros. Foi o que fez o diretor Edward Zwick com Lendas de outono, que no cinema ganhou o título de Lendas da paixão, estrelado por Anthony Hopkins e Brad Pitt.
A novidade, agora, em torno de Harrison, fica por conta de um livro de 1976, Farmer, que o brasileiro Bruno Barreto, o mesmo diretor de Dona Flor e seus dois maridos da obra de Jorge Amado, levou para as telas com Amy Irving e Dennis Hopper nos papéis principais. O filme deve chegar às telas ainda neste semestre, mas Farmer acaba de ser lançado em livro, com o título Atos de amor.
O livro conta a história de um professor de escola rural e sua relação com a mulher de um amigo que morreu e que passará a acompanhá-lo, com a aprovação de toda a comunidade. Até aí, a história de Joseph e Rosealee teria tudo para correr bem não fosse entrecortada pela aparição esfuziante de Catherine. Uma aluna de Joseph que passa a povoar os seus sonhos e, depois, a satisfazer seus desejos.
Harrison, porém, tem o mérito de trabalhar essa história simples com delicada sofisticação. Seus personagens são amargos, mas se permitem momentos de extrema ternura. Vivem na área rural e têm como lazer a caça, pesca e os banhos nas lagoas. Joseph também mergulha nos livros e sonha com os mares e os seres que neles vivem. As imagens mesmo que recheadas de detalhes não deixam de ser desertas. A vida segue um ritmo lento, bem apropriado a pequenas comunidades rurais _ o próprio Harrison vive numa fazenda do Arizona _, como a estrutura com que a história é contada. Mas há momentos que, de tão cinematográficos, conseguem prender a atenção do leitor e remetê-lo para seu passado.
´´Joseph gostava dos dias compridos e frescos do outuno, quando até mesmo as sombras projetadas na terra eram nítidas, específicas. O celeiro criava um outro maior, mais escuro, e os dentes do ancinho enferrujado encompridavam-se por cima do mato. A primeira geada fizera murchar a folhagem espessa do quintal, deixando à mostra as bolotas carnudas, as abóboras verdes, os últimos tomates e pepinos já podres. Gansos e galinhas possuíam sombras próprias, ciscantes``.
É nesse território de sombras que Harisson monta o seu quebra-cabeça, jogando fiapos bergmanianos sobre personagens simples, cuja complexidade da vida é resolvida numa taberna entre um gole e outro. Ou com histórias de pescaria e caça. As regras estão todas prontas diante de si, mas é com indelével prazer que Joseph irá tentar encontrar o novo. O mar onde habitam os peixes que conhece nos livros e o cheiro de Rosealee, que,depois, passa a lhe parecer extremamente familiar.
Atos de amor não chega a ser um grande livro. É gostoso, porém, como um sorvete de morangos. Flui com suave amargura, como o retrato de Itabira a que se referia Carlos Drummond de Andrade. As cidades e os personagens vivem numa comunidade que parece longíngua dos grandes centros e, por isso, representam um vento de nostalgia, aí sim amarga, daquilo que não existe mais, exatamente como os versos do poeta mineiro.

Publicado em 06/04/1996 no Caderno Idéias Fonte: JORNAL DO BRASIL

Escandâlos, sustos e sangue


Ex-corretor britânico explora o mundo excitante das operações fraudulentas e milionárias

O ex-corretor do mercado financeiro londrino Michael Ridpath (foto), 35 anos, depois de atuar 12 anos no ritmo nervoso das operações de compra e venda de papéis, quando chegou a administrar recursos da ordem de US$ 1 bilhão, decidiu ganhar dinheiro com literatura.
Em 1995, na esteira da crise que levou o tradicional Banco Barings da Inglaterra ao chão, Ridpath escreveu o livro Negociações perigosas (Free to trade). Um thriller de oportunidade que segue à risca o passo-a-passo dos best-sellers. Mulheres bonitas, uma morte suspeita, intrigas, milhões de dólares em jogo e, o que fez com que a história rendesse muito dinheiro a Ridpath: um beabá das operações financeiras, em que o mercado de derivativos é um dos destaques.
Não poderia ser diferente. Foram as transações com derivativos _ apostas em papéis que garantem operações reais, como importação, desempenho de uma ação ou título público e privado nos pregões _ que levaram outro inglês, Nick Leeson, a provocar a crise do Barings. O ex-corretor mostra esse universo, que despertou a curiosidade da Inglaterra e de todo o mundo, principalmente os países emergentes, entre eles Cingapura, palco do escândalo do Barings, e o Brasil, onde é cada vez maior o volume de operações com capitais estrangeiros de risco.
Tanto que Ridphat programou visitar o Brasil ainda este mês à procura de ambientação para uma nova história. Se seguir a trilha de Negociações perigosas, o livro terá uma estrutura bastante simples. Mas, certamente, aqui o escritor encontrará situações mais intrigantes.
As crises que envolvem o Nacional e Econômico, com direito a balanços forjados e acionistas minoritários a ver navios, são um rico material para esse inglês que nasceu em Devon, estudou em Yorkshire e se formou em História por Oxfordf.
Ridpath poderá acompanhar ainda, com olhar de especialista, a oscilação das bolsas brasileiras face ao temor de CPI nos bancos; um programa de privatização em andamento, que aceita pelo valor de face títulos vendidos no mercado secundário a 35%; e juros na estratosfera, que atraem capitais especulativos como os que Ridpath manipulava. Sua área de atuação era justamente a dos os famosos junk bonds, os bônus de alto risco que geram fortunas e ruínas. Se ler atentamente os jornais e conversar com outros operadores, o escritor se deparará também com clientes mortos fazendo operações de empréstimo de milhões e um profissional do mercado, Clarimundo Sant`Anna, ex-diretor do Nacional, maquiando balanços para esconder a bagatela de US$ 5 bilhões.
Em Negociações Perigosas, o corretor Paul Murray, da pequena firma de investimentos e administração De Jong & Co. começa o dia dando a exata idéia da sedução que o ambiente que freqüenta irá despertar no leitor: ´´Perdi meio milhão de dólares em pouco menos de meia hora e, além disso, a máquina de café encrencou``.
Mas isso será café pequeno. Murray irá sair para um drinque com uma colega da corretora, cujo corpo será encontrado no dia seguinte boiando nas águas do Tâmisa. Aí começa a rede de intrigas. Debbie era uma mulher bonita, extovertida, que gostava de apostar, ganhar e gastar dinheiro. Também arriscava e, seguindo os passos das últimas operações que realizou, o livro ganha em velocidade.
O texto seco ajuda a leitura, as explicações das operações financeiras são didáticas, mas o suspense criado em torno do crime, das situações e dos ambientes glamourosos dos centros financeiros de Londres e Nova Iorque, por onde desfilam os personagens, segue a estrutura pré-moldada dos best-sellers. Para quem começou agora, Ridphat sabe ganhar dinheiro.


Publicado em 06/04/1996 no Caderno Idéias Fonte: JORNAL DO BRASIL

Pobres partículas solitárias

À beira da morte, cientista que levou uma vida de isolamento decide
aprender a amar e escolhe uma criança como alvo de todo o seu afeto


´´Por favor, deixe que eu ame você. É divertido. É como adorar uma pedra``. Benedikt August Anton Cecil August Conde Waller von Wallerstein é mesmo uma pedra. Um homem só, que se dedica ao estudo dos sólitrons, partículas que vivem solitárias e mesmo quando colidem com outras, voltam a seguir seu curso. A escritora americana Irene Dische, porém, coloca à prova a teoria matemática do personagem central de Acordes tristes de uma valsa alegre, livro que escreveu em 1993, fazendo-o colidir com a vida em meio aos escombros do muro de Berlim e da reunificação da Alemanha.
Com o mesmo tratamento refinado, por vezes barroco, que Lucchino Visconti dava a seus filmes, Irene expõe, no livro, as reações do aristocrata e decadente Benedikt diante do novo. A Aids, que Irene apenas sugere, é o elemento de colisão que irá bombardear o universo de Benedikt por meio da ex-governamenta alemã oriental de Albert Einstein, uma imigrante russa e seu filho.
Tudo começa quando a irmã de Benedikt, Dolly, sugere que ele precisa amar e que seria mais fácil começar por uma criança. A partir de um anúncio em jornal _ Senhor solteiro com doença incurável procura criança, de preferência ainda pequena, para ser adotada _ o personagem de Irene e o livro ganhamem velocidade e constrastes. Benedikt substitui as conversas sisudas da academia, a troca de informações matemáticas pelo bom humor da espera, a esperança de que com a chegada do novo, algo irá acontecer.
Acontece. Com Valerie, a criança russa e sua mãe, e mais a ex-governanta de Einstein a história tomará novos rumos. As relações, sob o pano de fundo de uma nova Alemanha, começam a ser estabelecidas, reestabelecidas e desintegradas.
Cenas fortes são relatadas seguindo o ritmo de uma partitura em desalinho, do allegro ao majestoso para desaguar no minueto. A vida para essa escritora americana, que mora em Berlim, se deixa levar por aquilo que está à sua volta. Resta a tentativa de refúgio ou entrega ou mesmo as duas coisas alternadas ou nessa ordem.
É nessa tentativa de lidar com a morte iminente, o processo de cisão, decisão de um país que se reconstitui em universo único e não mais em conjuntos de sólitrons, que residem os motivos que levam Irene a fazer sucesso no meio editorial cult dos Estados Unidos.
E é justamente essa expectativa, estimulada por fatos singulares como a trupe que irá passar a acompanhar os dias de Benedikt, que faz com que o leitor consiga superar algumas páginas em que Irene se perde nas descrições barrocas dos ambientes e dos fatos históricos para reencontrar a história de Benedikt. Irene tem uma fixação pelo detalhismo. A vida de seus personagens é cheia de detalhes, muitas vezes exaustivos.
Os Acordes de Irene, no entanto, não são apenas mais um livro sobre Aids que chega às livrarias. Ele vai, para o leitor mais atento e paciente, um pouco além na sua tentativa desconstrutivista de provocar a convivência de opostos. ´`Era uma vez um homem que queria entender a vida. E ele pensou: para entender a vida, é preciso entender o vazio _ o nada. Então, ele sentou embaixo de uma macieira, e esvaziou seu cerébro de tudo que já havia conhecido. E, de repente, começaram a cair flores em cima dele``, conta Benedikt ao menino Valerie, quando começa a superar o vazio.
Essa é a promessa de Irene. Flores para quem conseguir romper com os solitróns de Benedikt. Ir além dos jardins intricados da aristocracia, dos preconceitos, conseguir ultrapassar o muro invisível e reunificar-se com seus iguais, opostos e o mundo singularmente novo.
A Berlim onde vive Irene exerce sobre ela e seus personagens grande influência. No livro de contos As judias: Histórias de Berlim e Nova Iorque (The Jewess: Stories from Berlin and New York), Irene antecipava essa fixação pelos aromas, as cores, as texturas e a própria proposta de despir para reconstruir, como fizeram os próprios arquitetos alemães, da límpida Bauhaus ao caos pós-moderno, onde Irene, por vezes se perde, e por vezes se encontra, justamente quando se despe.

Publicado em 09/03/1996 no caderno Idéias Fonte: JORNAL DO BRASIL

Wednesday, February 15, 2006

Saçarico destemperado


Camilo José Cela escreve, aos 75 anos,
sobre machões, fogosas, homossexuais e fetichistas

O escritor espanhol Camilo José Cela surpreende sempre. Depois de conquistar o Prêmio Nobel de Literatura de 1989 pelo conjunto de sua obra, com destaque para o mergulho nas feridas abertas pela Guerra Civil Espanhola e que o estimularam a discutir o poder e o comportamento do homem diante da opressão e das injustiças em livros como A Colméia, Mazurca para dois mortos e O assassinato do perdedor, Cela lançou em 1991, com 75 anos, Saracoteios, tateios e outros meneios.
Neste livro que a Editora Bertrand traz ao Brasil, depois de cinco anos do lançamento, na tradução de Mario Penedo, Cela solta o verbo, revelando em 20 contos o seu lado libertino para tratar mais uma vez da opressão e do preconceito, expor com ironia os desejos nem sempre recatados de padres, solteironas, fogosas, machões, fetichistas, heterossexuais e homossexuais.
São histórias atemporais, algumas saborosamente debochadas, rasgando o véu da hipocrisia e mostrando, de forma crua, sem desprezar palavrões, os segredos das alcovas. Em ´´Discurso aberto para o ouvido certo``, um pai descreve ao filho os dotes, físicos naturalmente, de sua avó, falando com nostalgia das mulheres do passado, contemporâneas de Pura, a avó do conto.
Em um dos trechos pudicos da apresentação de Pura, o pai diz: ´´Aquilo, filho meu, era gado raçudo demais para os costumes de hoje! Aquelas mulheres eram fêmeas do bota para quebrar, do pega mata e come, da pancadaria, do nem Deus me segura! Tendo à frente uma daquelas mulheres, de temperamento semelhante ao dela, podia se administrar uma tropa de putas, de modo que todas elas tivessem, de sobra, tempo para encarar as tarefas domésticas, a criação dos filhos e os trabalhos próprios do sexo``.
É assim, em linguagem escancarada, que Cela vai descrevendo o que há por trás das roupas e convenções sociais a que estão submetidos seus personagens. As ilustrações de cada conto da edição brasileira _ postais de nus antigos, característicos da virada do século _ ajudam o leitor a mergulhar nesse universo de delícias. O escritor, de estilo refinado, consegue transformar seu Saracoteios... numa fechadura aberta de uma porta por onde se pode ver, com irrestível dose de curiosidade, as relações profanas que ele consagra nos contos.
A vida de ´´Soledade Mascoelha do Cebolão`` é uma das histórias nas quais Cela brinca com a perversidade sexual. A personagem, ´´também conhecida como Xotalouca (e chamada por alguns de Grelotorto, por ter o dito cujo um pouco desviado para estibordo), foi desvirginada com um tiro só, no dia da Virgem da Piedade, padroeira de Almendradejo, seu povoado natal, no ano de 1913. A coisa não foi feita com má intenção, Deus que não me deixe mentir, mas por pura brincadeira, um tanto pesada, é verdade, porém da mais resplandecente eficácia``, O restante da história já se pode imaginar, assim como a vida e as andanças de Dom Párdulo de Guzmán y Montecín, ´´aliás frei Pinto Pau-Ferro``, ou a de Dom Bonifácio de Abricó Sarmento e Gomes, ´´aliás Quasecapão, de profissão oboé da Banda Municipal e por inclinação paquerador daquelas cuja cara seria melhor encobrir com um piedoso véu``.
Mas não se espere do livro de Cela um festival de histórias que estariam melhor reunidas em revistas masculinas. É literatura com a qualidade e a marca do escritor que não dispensa a elegância das palavras para temperar com inteligência a sua sátira. Aliás, entre Cela e o poeta Carlos Drummond de Andrade há uma similaridade ímpar. São homens que, após os 70 anos, se deram o direito de mostrar uma face libertina. Cela em contos, Drummond em poesias, ambos mostraram, para a delícia de seus leitores e o prazer das horas sem sono, o universo erótico da vida humana, sem a qual não é possível viver, ou será?


Publicado em 02/03/1996 Fonte: JORNAL DO BRASIL

O terror em tempos de aids


Novela de Sontag
retrata sociedade
que não consegue
mais ser solidária

Susan Sontag traça panorama sombrio da sociedade dos anos 90 no livro Assim vivemos agora. Como uma cirurgiã, ela disseca a Aids por meio das reações de um núcleo eclético de personagens que passam a conviver com a doença a partir da contaminação de um deles.
O resultado? Uma espécie de quebra-cabeça, onde a uma frase de um personagem se soma outra e assim sucessivamente, revelando ao leitor a epiderme e as entranhas de uma sociedade sem sonhos e ideologia, que desaprendeu a se conjugar no plural. Não que os personagens de Susan sejam frios e solitários, eles até tentam demonstrar solidariedade, carinho e amizade, mas em doses insuficientes para tornar o livro mais suave. Susan quis dar um soco no cotidiano dessa sociedade da qual é parte integrante e ativa na esperança de que saia do singular e acorde para o plural.
Na sua autópsia, ela põe o doente como um goleiro na hora do penâlti. Mesma situação em que se encontram os personagens que o cercam. A única salvação é o jogo em equipe. Todos tentam, mas a fragilidade de suas vidas os impedem de se darem mais, de dialogar. Não existe solidão maior do que a do goleiro diante do penâlti, são segundos que contam como horas intermináveis.
E se a melhor forma de romper o temor e medo da morte e do gol iminente é o ataque, ele não existe. Os personagens de Susan, ao contrário dos de outros escritores, como a Clarice Lispector de Um sopro de vida, são tomados pelo tédio amargo da acomodação. Não reúnem todas as suas forças para vencer a morte, ao contrário, passam a conviver com ela como um fim em si mesma, uma previsibilidade como a que ao final de cada dia surgirá a noite e ao final desta o dia.
E é essa a virtude do livro de Susan, a de usar um espelho como elemento de reflexão, fazendo com que na última página o leitor se pergunte: é assim que vivemos agora? Na indagação reside toda a esperança da autora.
O texto é outonal. Nem por isso, totalmente triste. É obra para ser lida com sofreguidão. O tempo maior será dedicado à reflexão. Outros, como Camus em A peste, analisaram o comportamente da sociedade diante do temor da morte. Mas Susan não quer ir tão longe, arranha a superfície do tecido, fere e injeta o vírus da desesperança. É um soro, positivo para irrigar com mais vida a vida em sociedade.

Publicado em 07/01/1995 Fonte: JORNAL DO BRASIL

Jogando limpo os jogos sujos


Ignácio de Loyola Brandão mostra
a hipocrisia de uma cidade num
romance policial de fundo amoral

O escritor Ignácio de Loyola Brandão amplia no próximo mês a relação dos livros policiais que marcaram os lançamentos deste ano. O anjo do adeus fará companhia, entre outros, a Xangô de Baker Street, de Jô Soares, com o qual se assemelha na análise do comportamento de uma cidade, seus moradores e referências. Se Jô optou pelo Rio do Império, Loyola procura situar o interior paulista, onde está a fictícia Arealva. Mas as semelhanças terminam aí. Os crimes e as investigações são diferentes.
Loyola faz uso do jornalismo policial para, a partir de dois crimes, desvendar os mistérios de Arealva. A morte da gostosa Manuela mexe com a vida de todos. Ela é rica, bonita, desejada e mulher de um empresário e político ao qual nenhum morador do lugar é indiferente.
Consumado o crime, Loyola apresenta a sua proposta explícita no subtítulo do livro: Sacanas honestos jogam limpo jogos sujos. Está dada a senha para o jogo de histórias e personagens. Mas é preciso superar as 20 primeiras páginas, cheias de referências, para compreender a proposta e se deixar levar por um texto que flui, ora com simplicidade, ora com rebuscamento. É como se Loyola tivesse colecionando histórias durante muito tempo e que, agora, despeja com sofreguidão nas páginas de O anjo do adeus.
Uma das referências, o clube da Baleia de Coral, onde se reúnem os seguidores e estudiosos da filosofia do dinheiro, é uma demonstração do fascínio e da visão crítica do autor sobre empresários. Nos últimos anos, Loyola foi responsável por projetos especiais sobre o assunto: Olhos de banco (biografia de Avelino A. Vieira, fundador do Bamerindus) e Itaú, 50 anos, são apenas dois de um conjunto onde se destaca também biografias de Onassis, Fleming (o inventor da penicilina) e Edison (o da lâmpada).
É com prazer que o escritor mergulha nesses universos e mostra as oportunidades e os negócios que movem os endinheirados ou pretendentes que freqüentam a Baleia de Coral. Mas Loyola não foge à sua proposta original, mesmo quando parece se perder nas referências. O livro flui com a teoria dos jogos, que vai agregando personagens e situações, se antecipando e deixando caminho para o leitor se colocar na pequena Arealva. Uma cidade que o autor desenha como farol de um país onde os valores se misturam, assim como o passado e o presente que irá delinear o futuro.
A grande virtude do escritor está na ironia com que trata seus personagens. Há aqueles por quem se percebe a paixão, mas ele procura, em ritmo frenético, igualar a todos na trama, no drama e na comédia da vida privada dos habitantes de Arealva.
O escritor é imperdoável até nas brincadeiras, onde expõe verdades íntimas dos personagens e descreve o que aconteceu com cada um deles. Na relação, o autor se inclui e diz que rejeitou fazer um pedido de aposentadoria especial por perdas e danos profissionais e financeiros impostos pela ditadura. De fina estampa é sua justificativa de que perdeu, em valores atuais, o correspondente a R$ 15 (´´tenho a nota fiscal``) referente a uísques pagos e não bebidos por força de agentes da repressão que invadiram o bar onde estava à procura de terroristas.
São os ´´sacanas honestos que jogam limpo jogo sujos`` e enquanto existirem haverá histórias e mais histórias em Arealva ou em Baker Street. Crimes e paixões que fazem leitores perderem horas de sono para desvendar as histórias nas quais se incluem. Ou melhor, nas quais estão relatados o comportamento de uma sociedade onde a ética e as opções de vida são postas à prova na mesa, na cama, no botequim e nos clubes onde se serve, com ou sem soda, as bebidas e os jogos.

Publicado em 09/12/1995 Fonte:JORNAL DO BRASIL

Uma breve introdução

A literatura e o cinema me deram asas, que transformei ao longo do tempo em palavras, textos, alguns dispersos, outros publicados nas páginas dos cadernos B e Idéias, do Jornal do Brasil, e de O Estado de S. Paulo. Decidi, para manter viva a minha memória, reunir esses textos nesse blog, e assim compartilhar essas opiniões do passado, receber críticas, e reler minhas idéias e lançar novas por meio de novos textos daquilo que ressulta em sensações que aqui serão expelidas e compartilhadas.